::20 de novembro::

Acordei as sete e meia da manhã e às dez pras oito entrei no Facebook pela primeira vez no dia. Foram quatro mensagens sobre o dia da consciência negra. Todas as quatro desprovidas de qualquer conscientização possível.

Não. Nós não somos iguais.

A discussão racial, que a mídia tenta manipular e por isso vocês acreditam que seja assim, não tem nada a ver com biologia.
A discussão étnica não passa por princípios de constituição, da nossa bela e hipócrita constituição, que diz e afirma (porque pode-se dizer tudo num papel) que somos, diante dos olhos cegos da lei, idênticos.

Não, nós não somos iguais.

Acontece em sociedade, acontece quando estamos todos juntos num emaranhado que não se rege por tratados científicos ou textos legislativos, ainda que eles tenham sim, alguma influência nas nossas atitudes.

Não nós não somos iguais.

E para mostrar que não somos iguais, é só mostrarmos como cada um de nós anda e flutua nesse caldo pra essa mentira se mostrar ridícula, precária, ingênua e estúpida.
Não somos iguais diante de um policial;
Não somos iguais diante de uma entrevista de emprego;
Não somos iguais nos shoppings da zona sul (onde eu faço questão de dizer aos meus amigos “perceba que os negros, no shopping, estão quase sempre vestindo uniformes”);
Não somos iguais diante da forma como um professor trata nossos filhos;
Não somos iguais quando andamos numa rua escura
Não somos iguais quando andamos numa feira de artesanato, lotada;
Não somos iguais quando nos encontramos à noite;
Não somos iguais nas nossas folhas de pagamento;
Não somos iguais diante das estatísticas de mortes violentas;
Não somos iguais nas estatísticas de morte prematura;
Não somos iguais nas salas de aula, ou na presença em universidades;
Não somos iguais quando observamos nossa distribuição pelas ocupações.

Nâo, não somos iguais. E eu não precisei recorrer à História, mesmo sabendo que ela justifica e explica o porquê de não sermos iguais.
Não recorri pra que não haja a possibilidade de que só se enxergue essa diferença no passado, numa sociedade podre e atrasada que nos tratava de modo diferente, na biologia e no direito.
A sociedade ainda é podre e atrasada e o avanço de nossas compreensões sobre a vida não serviu para que mudasse o jogo social, apenas deu aos imbecis e hipócritas novas formas de se distrair.

Feliz dia da consciência negra pra você que quer romper o senso comum, que quer sair das argumentações sobre “um amigo que se deu muito bem” ou “um amigo que é muito preguiçoso” e discutir a nossa desigualdade.
Feliz dia de Zumbi pra você que quer tomar qualquer consciência das coisas.

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::3 telefonemas::

_Ismael?
_Oi?
_É a Natália.
_Hum…
_O Teo tá aqui.
_Na sua casa?
_Na rua, aqui de frente.
_Não tá na sua casa?
_Ismael, caralho! Vem buscar o Teo.
_Natália, eu não posso fazer nada, o Teo não é nenhum menino. Ele é livre pra ir e vir. Aposto que está lá do outro lado da rua, sem incomodar ninguém.
_Seu filho da puta…
_Ele está bêbado?
_Claro!
_Você chamou a polícia, Natália?
_Não, Ismael, eu tô ligando pra você!
_Você não chamou a polícia porque sabe que ia ouvir exatamente o que eu falei. Se ele está só sentado, não tem nada pra ser feito.

(Ela está desesperada, chorando. Eu me sinto um crápula. Tenho que buscar o Teo. Eu estou mentindo. Vou buscar o Teo, mas não me sinto um crápula. Eu tento, mas não consigo)

_Natália, ele está aí por sua causa. Porque você fez isso com ele. Acho que você merece passar um pouco do tormento dele. Mas vou buscar ele sim. Não diz isso pra ele. Não dá papo, não tenta se comunicar, entendeu? Ele tentou conversar com você?
_Ele bateu a campanhia até ela desarmar. Mas não fez mais nada. Foi pro outro lado da rua e está lá, sentado no passeio.
_Avanços!
_Vai à merda, Ismael. Vem buscar ele logo!
_Vocês vão precisar esperar quinze minutos, pra dar meu horário de almoço. Aí eu desço. Não deixa ele conversar com você. Não chega na janela. Se ele insistir e eu não tiver chegado, chama a polícia.
_… tá.
_ Natália?
_Oi?
_Vai à merda, você.

………….

_Quem tá falando?
_Luciana?
_Ismael, aconteceu uma coisa grave.
_Tomara.
_Puta que pariu, cara. Deixa de ser escroto! Eu não ia ligar se fosse qualquer coisa.
_Eu ainda não sei porque você ligou. O que aconteceu?
_… O Ulisses. Tá no hospital.
_Que você tá fazendo com o Ulisses, Luciana?
_Foi coincidência. Eu estava na rua e encontrei com ele. Ismael, a gente foi assaltado.
_Como?
_Deram uma facada no Ulisses, Ismael. A gente tá no Belo Horizonte.
_Puta que pariu…

(ela está dando instruções. Não estou ouvindo. Estou, aliás, me esforçando pra não ouvir e torcendo pro Ulisses morrer. É o mínimo, pra me fazer passar por isso)

_…e precisa de sangue. Qual seu tipo?
_Acho que A alguma coisa. Mas eu bebi ontem.
_Foda-se. Vem logo.
_Vou descer.
_Ismael… eu tô com medo, cara.
_…calma. Esse puto não vai morrer assim não.
_Não é isso.
_É o quê?
_…
_Eu também, Lu. Mas depois a gente pensa nisso.

…………………

_Pronto!
_Oi. Aqui é a Nádia. O João tá por aí?
_Ei, Nádia. É o Ismael. O João tá dormindo. Quer deixar algum recado?
_Tá dormindo até agora?
_Olha, então… ele chegou deve ter umas duas horas, só. Mas não vai pensar mal dele, hein? Tava trabalhando. Tocou a noite inteira num bar.
_Ele tava trabalhando mesmo, Ismael?
-Tava, sim, Nádia. Pode ficar despreocupada. Eu aviso que a senhora ligou assim que ele acordar. Como tá tudo aí?
_Tudo bem. Eu tava ligando só pra saber se tava tudo bem mesmo. Se vocês não estão precisando de nada…
_Tá tudo tranquilo, sim. E com o Ulisses de molho, sem aparecer, tranquilo até demais. O João tocou num lugar bem legal ontem, era pra eu ter ido, mas tenho andado meio desanimado.
_Eu fico mais tranquila quando você vai com ele. Você está sentindo alguma coisa?

(eu penso num monte de gente, vários palavrões e em algumas crises de sentimentalismo barato. Eu quero dizer à mãe do João que tenho vontade de morrer. Quero explicar que tudo ao meu redor não vale a pena, é medíocre demais pra quantidade de sofrimento que causa. Dona Nádia, eu desisto. Eu sinto a garganta secar. Merda de vida)

_Tô não. É só porque fiz umas horas extras essa semana. Tô cansado, só isso.
_Então aproveita que é sábado e descansa, menino. Vocês tão muito rueiros! Manda um beijo pro João e outro pra você.
_Um beijo, Nádia. Até!
_Cuida dele, hein? Tchauzinho.
_Pode deixar. Beijo.

::leitora::

Ter leitor é uma coisa bonita que acontece quando a gente começa a escrever. Vem uns teóricos doidos pra dizer que a gente lança um texto no espaço e o leitor pega e reconstrói e tudo mais, mas isso é pouco. Quando a Camila começou a conversar comigo sobre as coisas que ela leu, eu me senti muito bem. Senti que havia um propósito que não era hedonista na minha escrita. Senti que estava dividindo um doce.
Li diversos comentáros espalhados no meio do blog e vi uma vontade sincera dela de internalizar meu texto, de fazer com que algo que pertence ao meu mundo pessoal (às vezes ultrapessoal, confessional, quase intransferível) também faça sentido na vida dela.
Quando o escritor é importante, quando virou um lendário nome na literatura mundial, é normal que os leitores se sintam íntimos dele, que pensem que existe uma conecção de ideias entre suas vidas e a vida do escritor, porque um determinado livro ou texto saiu de uma mente pra fazer sentido pra outra.
Comigo é o contrário. Vou logo tratando como velho amigo alguém que me lê. Acho que, menos por uma noção da infita conexão astrológica, cósmica, do sétimo dia, proporcionada pelas chaves de significação do texto e mais porque eu acho que pra me ler, tem que gostar de mim. Minha literatura me soa como a mania que a gente tem que perdoar num amigo.
E daí que a Camila sempre foi uma presença sorridente e simpática, mas eu ainda não tinha pensado nela, assim, objetivamente, como minha amiga.
Virou em amiga depois que começou a me ler. Ficou “de casa”. Chega no messenger me chamando de “Zé”. E o mais engraçado é que desde que eu a ganhei como leitora, a gente nem se encontrou mais.
Essas coisas botam a gente pra pensar profundamente sobre alguns assuntos: “até onde a gente consegue avaliar com clareza aquilo que escreve?”, “quais conexões a literatura pode ajudar a criar entre as pessoas?”, “será que o marido dela bebe cerveja?”
Esse texto está aqui porque eu tinha prometido a ela. Eu ia dizer nesse texto que ela é meu quarto leitor e a quinta Camila. Mas é bobagem.
Primeiro porque como leitor, Camila é um intermediário da Simone com Vivian, uma pessoa que me leu porque me achava uma pessoa simpática e continuou a ler porque gostou mais da literatura que de mim.
Depois porque, em matéria de Camilas, das quatro outras só uma ainda é presente (apesar de nos vermos pouco) e é minha amiga (minha best friend forever) e só me dá boa notícia. Então não vale a pena insistir nessa do nome. É só um nome comum e bonito. Como diz meu pai, nome de mulher bonita e complicada.
De resto, Camila, o mundo é cruel e a gente sofre e tenta ser feliz. Não sofrer às vezes parece tão raro que vira um modelo de felicidade. Às vezes, não.