::mundo cruel, agora em versão “gatos”::

O sujeito que desentope o encanamento é baixinho, careca e falador. Comentava o serviço que estava fazendo, contava das diferenças entre essa e sua última vinda (quando eu não estava em casa) e seu estranhamento diante do novo entupimento, tão precoce. Se não tivesse chegado tão cedo, teria encontrado café e algo pra comer e estaríamos conversando até agora (e não haveria crônica). Cara legal, ele. Apesar da conversa e do trabalho de vasculhar os canos da casa com aquela infinita mola de metal, não deixou de notar o tamanho do meu gato, o Horácio. Parágrafo pra descrever o gato: Horácio é um gato alaranjado que um dia apareceu na biblioteca e se entocou na estante de revistas em quadrinhos. Era uma porcariazinha pouco maior que a minha mão. Demos pra uma usuária levar. Ele fugiu e voltou a se entocar nas prateleiras da Turma da Mônica e eu não resisti, resolvi adotá-lo. Pouco espaço, muita comida e toda a preguiça do mundo, fizeram com Horácio crescesse e alargasse consideravelmente. Um amigo o apelidou de “Bolácio”, o que é muito apropriado. Voltando ao encanador… desde a hora que chegou, enquanto que passava a sonda, verificava as torneira, ou quando esquecemos a porta aberta e o bicho tentou fugir, notei que ele lançava uns olhares divertidos na direção do meu gato, principalmente pra barriga do Bolá… quero dizer, do Horácio. O serviço ficou pronto, testamos as torneiras e não tinha nada vazando. Ele recolheu o equipamento e eu fui ajudar a colocar na Kombi. Quando estávamos saindo, o gato estava esticado perto da porta, fazendo o que sabe fazer melhor, que é nada. O homem olhou de novo pra ele e disse “um bicho gordo desse, dentro de casa, meu avô não perdoava…” Horácio fez uma cara entre espantado e ofendido. O bombeiro completou “Ele levava os gatinhos pro sítio e cevava os bichos, pra depois passar a faca. Nunca vi um sujeito gostar tanto de carne de gato”. Meu gato, com os olhos arregalados, deu dois passos pra trás, preocupado com aquilo ser uma tradição de família. Cevado ele sabia que estava. Olhou de mim pro sujeito, pedindo proteção. Pra sorte dele, não era tradição. Ele explicou, mais pro gato que pra mim, “não precisa ficar preocupado, que eu não gosto dessas coisas não. Tenho nojo. Mas meu avô…” e olhou pro gato, que realmente tem andado redondo e suculento como um coelhinho…