::em linha::

A desesperança é sempre mais bonita em versos. A falta de propósito, o niilismo, o pessimismo crônico da vida de cada um adquirem uma nota de dignidade, um tom de “poema em linha reta” ou “tabacaria”, quando se colocam em frases quebradas, em estrofes. Mas não. Me recuso. Eu preciso da prosa, porque as imagens poéticas são um tanto hipócritas, principalmente pra quem não tem nada além delas. Melhor contar que fiquei parado, esperando o dia passar de frente pro relógio, sem música, sem literatura, acompanhado pelos cliques do ponteiro dos segundos, pelo barulho do motor da geladeira, pelo tremor do piso quando passa um caminhão e pela vontade de não existir (e essa vontade é tão diferente daquela vontade de morrer, que me espanta pensar que as pessoas as confundam!) do que dizer “observo o tempo escorrer para o fundo da ampulheta eterna do meu peito”. Não há ampulhetas. Só o relógio de parede que roubei na casa da minha ex, na última vez em que estive lá. Eu ainda tinha as chaves e na época senti que isso era autorização suficiente para continuar a frequentar a casa sem avisos, mesmo depois de tudo desfeito. Roubei o relógio num domingo. Ela não estava em casa. Como hoje, assisti o virar dos ponteiros por horas, delirando com todas as imagens de uma felicidade dela sem mim. E nesse dia eu quis morrer, diferente de hoje. Fui embora com o relógio, ela não tinha voltado. Me ligou na terça ou na quarta, pedindo as chaves. Não falou no relógio, não falou em polícia ou em privacidade. Só me perguntou se podia deixar as chaves com um amigo em comum, que como ela ou eu, não precisa de um nome. Não nos falamos mais. Não devolvi as chaves, mas não voltei à casa dela. Talvez tenha trocado as fechaduras. Talvez tenha se casado e se mudado. Acontece. Eu olho o relógio. A felicidade já não importa mais.

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