::mais uma de flor::

Nasceu uma flor no quintal de trás da casa. Fiz um café forte e fui me assentar lá pra ver. Descobri a flor à noite, pouco antes de dormir, fechada ainda. Imaginei que ia abrir de manhãzinha.
Como uma pessoa que se coloca de frente pra uma instalação de arte, ou de um quadro, pra “sentir” e “entender”, me coloquei diante da florzinha, sentado na terra do quintal. Tem grama, mas é mais terra e mato que grama. O ambiente é importante, talvez tanto quanto a flor. O sol das sete e meia, o vento que eu não sei de onde vem, mas vem, o cheiro de verde, sempre um pouco triste, que exala do conjunto de plantas. A terra debaixo de mim, sujando a bermuda e um pouco das minhas pernas.
E a florzinha lá, no meio da manhã acontecendo. As pétalas vermelhas e ainda tímidas e duas folhinhas ainda enroladas no caule frágil, de um verde pálido que diz “eu ainda não estou verdadeiramente viva. Morrer ainda é a operação mais fácil”. Mesmo sabendo que sou eu que estou pensando essas coisas sobre ela, a corrijo: morrer é a operação mais fácil em qualquer momento da vida.
Não sei que flor é essa. Podia disfarçar e dizer que é uma coisa filosófica, de não nomear as coisas, mas é só porque eu me esqueço de pesquisar depois. O certo é que eu nunca planto nada aqui. São os bichos que plantam. Eu vejo depois, acho tudo muito bonito, muito interessante, mas me falta a curiosidade de biólogo, pra buscar uma foto e um nome num livro ou no computador. As plantas nascem como têm que nascer e eu só me dei o trabalho de cercar essa parte da casa porque senão alguém cimenta, asfalta, concreta, cava e faz uma piscina azulejada. Outra mentira seria dizer que eu não gosto de nada disso. Adoro. Mas gosto de terra, também. Das coisas desgovernadas, que acontecem por acontecer.
E da chance que tenho de fingir que uma flor vermelha, desconhecida, que pode simplesmente ser pisada pelo cachorro, represente qualquer coisa de diferente, uma promessa, um amor, a esperança que um filho provoca.

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2 comentários em “::mais uma de flor::

  1. Manu disse:

    Os renasceres cotidianos! S2
    Sempre haverá um uma flor perseverante nascendo entre as rachaduras do concreto. A natureza não respeita o homem. Ainda bem!

  2. Nerito disse:

    Me lembrou as crônicas legais pra caramba que li ao longo da vida.
    As coisas desgovernadas possuem um charme irresistível. Talvez porque no fundo todos sejamos desarranjados.

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