::madrugada::

O miado atravessa a rua, vindo de não sei onde e entra pela janela, me invadindo um sonho. Acordo, assustado, já sem lembranças do que sonhava. Estou suado e sinto a garganta seca. O miado provavelmente me salvou de alguma coisa ruim. Quero água.
Caminho no escuro até a cozinha, onde a luz da geladeira ataca meus olhos. Sinto a temperatura do copo nos dedos e o frio se irradiando por dentro do meu peito, enquanto a água desce pela garganta. O choque da água com o calor do meu corpo é bom. É um pouco de paz, penso.
Mas não pode haver paz. Nunca.
Um barulho no quarto. Fico alerta. Mais e mais fortes miados lá fora. Um gato? Teria entrado pela janela? No terceiro andar? Não é um gato. Alguém está andando pelo apartamento onde moro sozinho e cada passo dessa suposta pessoa faz com que os pelos dos meus braços e pernas se arrepiem. Mais e mais. Estou em pânico. .
Lá fora, os miados continuam. Um vulto aparece na porta da cozinha e fica ali, parado. Não consigo distinguir seu rosto. Tento me mexer, mas meu corpo parece imobilizado, feito de chumbo e tudo ao meu redor é medo. Quero dizer algo, mas minha língua parece crescer e se enrolar por dentro da minha boca. os miados não param.
A sombra dá um passo pra dentro da cozinha. Ainda não consigo focar suas feições. Sinto que meu corpo vai cair. A única coisa nítida em toda a cena são os malditos miados, que parecem tão fortes que conseguem desviar minha atenção de todo o resto para me perguntar “como eles chegaram até aqui?”.
Despenco.
Acordo. Molhado. Eu, o lençol, tudo é suor na minha cama. Dessa vez me sento e coloco a mão na testa. Não tenho febre. Tenho um pesadelo dentro de um pesadelo.
Continuo com sede, mas tendo medo de ir à cozinha. Os miados estão lá fora, reais. Resolvo sair da cama, tomando o cuidado de ir acendendo as luzes.
Na cozinha, abro a geladeira. Olho a garrafa de água por um tempo e pego uma cerveja. Vou pra sala, atento, mas já sentindo o medo diminuir. Sinto um incômodo leve na sala, mas não consigo definir exatamente o que é. Talvez eu não queira entender o que há de errado. Melhor me distrair dos detalhes.
Abro a janela. A madrugada é quente como qualquer outro horário nesse verão infernal. Nenhum vento entra pela janela aberta. A cerveja não parece ter gosto de nada, mas sei que é diferente da água.
Observo a rua silenciosa, com prédios e casas de poucas janelas acesas e muito escuro. Ninguém na rua. É estranho, eu penso, esse silêncio todo. Onde estão os miados? Prestando mais atenção, percebo, no silêncio, mais ausências além dos miados. Carros e ônibus, outros animais, nada faz barulho na noite. A cidade parece ter se tornado um cadáver, mas um cadáver quente.
Percebo um movimento na rua. Um gato. A pelagem branca, fantasmagórica, brilha na madrugada.
E ele vem, silencioso, subindo a rua com sua elegância arrogante de gato.
Percebo logo que ele está arrastando algo que parece preso ao seu corpo, pela parte de trás. E percebo, mesmo da distância, que ele tem os olhos amarelados fixos em mim, na janela.
O medo volta com toda a sua força paralisante. Não posso me afastar da janela. Preciso assistir ao gato que arrasta algo que sai de dentro de si. Uma estranha bolsa de carne, cheia, presa em seus quartos traseiros e deixando um rastro fino de sangue pelo caminho. E ele me olha. E eu sei o que é essa bolsa.
Horrorizado, sou obrigado a assistir a gata branca arrastando sua placenta rua acima em silêncio absoluto.
Para bem debaixo da minha janela, no meio da rua. Começa a se soltar do embrulho, como se tivesse vindo trazê-lo pra mim. E então mia.
O miado é um lamento fino e longo que me faz querer olhar de volta pra sala, pra carta que eu ignorei sobre a mesa. A carta que não deveria estar lá e é o terrível detalhe do qual me esquivo. A gata começa a rasgar a placenta com seus dentes e garras e de lá, tira um filhote morto e sujo. Esse filhote viscoso é um bebê humano. A gata continua a se lamentar em miados doloridos e num momento ela não está mais sozinha. Outros miados se juntam aos dela e outros gatos vão surgindo, vindos de lugar nenhum, pelas pontas da rua.
Estou dentro da algaravia de miados, sem nenhuma existência, sou um observador sem corpo desse espetáculo de terror. A gata se aproxima do bebê morto e o morde seu rosto.
A cena apenas existe, então não posso me esquivar. A gata arranca pequenos bocados do rosto do bebê, enquanto os outros gatos vão se aproximando e começam a atacar todo o corpinho.
Acordo de uma vez, me debatendo na cama e chorando. Abraço o travesseiro e deixo os soluços virem, tomando conta de tudo. Na rua, gatos acasalam e fazem um barulho infernal e humano. Olho para a janela do quarto e percebo que a madrugada já trocou o negro pelo azulado que indica o amanhecer em breve. O choro diminuiu e eu me levanto, sem nenhum medo, mas completamente desesperado. na mesa da sala, a carta, o envelope rasgado ao seu lado. Os gatos lá fora, impossivelmente reais e barulhentos. Fora dos pesadelos, o maior e mais perverso deles.
Assentado na mesa, já ouvindo um início de movimentação na rua (os primeiros ônibus, as primeiras pessoas, a vida mecânica), pego a carta e meus olhos passeiam pelas palavras, como se estivesse diante de uma língua desconhecida e sem sentido. Mas a indiferença diante de tudo não ameniza o peso do que eu leio. A confusão em que me encontro e os resquícios dos pesadelos não diminuem a verdade escrita ali, em meio aos lamentos e aos insultos.
“Eu nunca quis o aborto. Eu vivi a perfeita ilusão de que éramos felizes, de que você e eu estaríamos pra sempre juntos. Nunca imaginei, seu canalha, que o mundo simples e bonito onde eu vivia não passava de um devaneio no qual você me envolveu, enquanto me traía e planejava uma forma confortável de se livrar de mim. Pois eu espero que a imagem da coisa que seria o nosso filho te assombre pra sempre, seu desgraçado. O inferno é um lugar doce, perto do que você me fez. Do que você me fez fazer.”

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2 comentários em “::madrugada::

  1. Ewerton Martins Ribeiro disse:

    Pelo visto, meu amigo, os gatos andam assombrando também os seus personagens, hã? Mas que coisa.

    ***

    Fernando Sabino, por meio de um personagem, certa vez escreveu: “o gato sou eu”. O conto era sobre uma disputa entre um paciente e um psicanalista sobre o direito de serem, de um sonho do primeiro, o gato.

    ***

    O segundo parágrafo deste meu comentário não tem relação alguma com o primeiro, exceto o fato de ambos não falarem sobre gatos. De toda forma, este terceiro parágrafo também não diz respeito aos anteriores, por mais que pareça o contrário.

    ***

    Vamos tomar uma cerveja no Maletta e falar sobre os gatos que fazemos em nossa literatura.

  2. Nerito disse:

    Puta que o pariu, cara. Credo. Que imagem Lovecraftiana! E ao mesmo tempo, ao ir do pesadelo ao real, ao inegável real da carta, a gente percebe que o maior terror é mesmo aquele que sai da fantasia e nos assombra com toda a sua crueza. Não precisamos de monstros, pois nós somos o monstro.
    Bravo!

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