Eu tenho essa ideia do suicídio na cabeça e ela começa com dois adolescentes abraçados e chorando.
Ela começa um pouco antes, na verdade. E o antes tem outros sucessivos antes, até podermos culpar os tataravós por essa cena que começaria com dois adolescentes abraçados e chorando.
Mas vou iniciar dizendo que eles tinham brigado e já não se falavam há algum tempo, apesar de estudarem na mesma escola.
Nesses dias era impossível que não se vissem e que as pessoas do colégio não tivessem um como referência do outro.
“Onde está ela?”, perguntavam pra ele, “E ele, vai atrasar?”, ela ouvia e davam algumas respostas evasivas e se evitavam, mas quando se viam, seguiam-se com olhos silenciosos e cheios de rancor.
Então ela realmente some. Dois, três dias. E isso é uma acontecimento incomum e todos notam.
De repente ela volta e o procura antes do início das aulas e diz “Me espera, que eu preciso conversar com você no final da aula” e sai.
No final da aula eles se sentam no chão de ardósia do fim do corredor, entre duas salas vazias. Os dois estão sérios, mas ele acha que é tudo por causa da briga e por isso não tem intenção de ceder, não vai dar o braço a torcer dessa vez, porque se sente muito magoado e essa não é a primeira briga, nem a segunda, nem a terceira… Ela:
“Eu vou te falar uma coisa muito importante. Não quero brigar, não quero explicar nada. Quero só que você me ouça”.
Eles se olham. Ela toma fôlego. Estão os dois ansiosos, ele porque ela não fala, ela porque tem que falar.
“Eu tô grávida.”
Eles sente as pernas afrouxarem e perderem as forças. Sente algo sendo injetado em seu corpo e se apoia na parede atrás dele. Provavelmente é adrenalina, ou a queda da pressão deixa essa sensação. A ardósia onde estão sentados é fria, a parede é fria, a notícia é gelada.
“Como?”
A pergunta é idiota, chega a ser engraçada de tão idiota. Nenhum deles ri.
“Quando?”
Ele vai tentar de novo, até acertar. Ela faz uma negativa com a cabeça e baixa os olhos.
Várias coisas acontecem numa velocidade alucinada, nas cabeças de um e de outro. Uma chuva de memórias cai com restos de lembranças e cheiros e o sexo perigoso e tímido dos adolescentes, o carinho e o rancor de quem se ama e se afastou, tudo tão rápido que se pudéssemos ver, seria como a estática na TV sem sintonia.
Os dois pensam uma mesma coisa e essa coisa os aflige e se torna uma terceira pessoa sentada entre eles. Invisível, mas presente.
Querem ignorá-la, mas é uma ideia pesada demais e ele é quem tem a coragem e a infelicidade de torná-la visível:
“Você nem sabe se é meu. Sabe?”
Ela começa a chorar como resposta.
Num primeiro momento eles continuam assim, a imagem mais completa da tristeza. Ela está abaixada, os cabelos lisos e oleosos sobre o rosto, as lágrimas descendo e a boca contraída. Ele, com as pernas cruzadas, os cotovelos nos joelhos e as mãos segurando a cabeça, o olhar perdido e desesperado.
Depois se abraçam. Eles se abraçam buscando conforto, um conforto que não existe, que nunca mais virá. Os dois desejam morrer, enquanto choram abraçados.
“Eu não posso ter esse filho”
Ela tem no rosto um olhar adulto e obstinado, que é muito engraçado no seu rosto de menina de 16 anos. De novo, ninguém ri. Apenas se encaram diante da afirmação. Ele suspira e ela seca o rosto com a camisa do uniforme escolar.
O gesto de subir a camisa até o rosto deixa sua barriga de fora. Ele olha e se sente mal. Está se sentindo mal porque está com um tesão terrível e inadequado. Suspira outra vez, pra afastar esses pensamentos.
“Você não quer ter?”
É a terceira pergunta errada. Não conseguiu acertar nada, não conseguiu criar um diálogo. A pergunta, como as outras, vai ficar sem a resposta certa. . Por muito tempo, a ausência dessa resposta direta e sincera irá assombrá-lo e conduzi-lo, mesmo que ele não saiba.
“Eu não posso ter esse filho”, ela repete.
Com os olhos arregalados e sem mirar nada em específico, ele assente. Os dois continuam ali, entre suspiros e silêncios. Estão sentados esperando por algo que não vem, algo que pudesse tirá-los desse lugar, desse humor, dessa realidade.
“Então?”, ele.
“Então?”, ela.
“Vou dar um jeito.”
Ele se põe de pé e estende a mão pra ela. Ela se levanta sozinha, deixando a mão dele no vazio. A sensação da mão no vazio não vai sumir nunca.
Eu tenho essa ideia do suicídio e ela começa com dois adolescentes abraçados, chorando, mas só termina vários anos depois. O aborto foi feito e também a separação definitiva. Ambos seguiram rumos muito diferentes e de quando em quando um pensa no outro, com um sentimento que não é dor, mas que está longe da ternura ou da saudade. É semelhante a passar os dedos sobre uma cicatriz. A essas se juntam outras com feridas mais ou menos próximas ou de profundidade semelhante. Eventualmente, porque isso acontece com todo mundo, um deles vai pensar “será que ele, será que ela ainda se lembra?”
Pra um deles, esse será o último pensamento.

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::autorock::

Tem uma frase, mas o importante não é a frase, é o que acontece ao redor. A frase descreve uma coisa como um pôr-do-sol, ou uma pessoa que caminha ou uma bomba que cai e arrasa diversos bairros numa cidade, mas o que acontece ao redor é que preenche a frase, que a torna viva. O sol se pôr não é nada sem os ônibus, os adolescentes em uniformes escolares, os carros e seus motoristas quase sempre imbecis, quase sempre tentando burlar uma lei de trânsito, quase sempre buzinando em momentos indevidos como, por exemplo, quando o sol se põe e nós não deveríamos prestar atenção em nada além do pôr-do-sol.
Ao redor da frase está a vida. Ninguém caminha no vazio, ainda que acredite nisso. A pessoa perde o emprego e acha que caminha no vazio. Descobre que contraiu AIDS do marido e acredita ter caminhado no vazio por todos esses anos. Recebe a notícia da morte da mãe, num acidente doméstico (algo como cair da escada ou tropeçar no banheiro) e tudo fica tão distante, opaco, sem importância que esse órfão recém nascido tem certeza de que caminha no vazio. Mas está errado. As coisas estão sempre ao redor. Ruas, pessoas e seus sofrimentos, homens com pressa e mulheres com medo. Olhar ao redor da frase é mais importante que ouvir a frase, que ler a frase, que escrever a frase.
Porque há um antes e um depois de toda frase, de tudo o que acontece.
Há o instante em que uma criança abre a geladeira e percebe um som distante, um tremor então ela morre. Ou o instante em que um homem saindo para trabalhar olha o relógio pela última vez antes de morrer. Uma professora imagina que vai se atrasar porque resolveu fazer sexo antes de sair de casa e goza com culpa, pensando nas crianças, mas nunca chega porque caiu uma bomba não existe professora, alunos, escola.
Há um terrível depois de tudo. Contagem de mortos, soldados, pessoas cegas, bombeiros, parentes em desespero, os mutilados, cavalos que gritam como almas de outro mundo e a notícia sobre os corpos de uma família que foram encontrados abraçados e mortos e os legistas descobrem que todos morreram juntos, antes da bomba, porque tinham se envenenado e essa é a tragédia.
A frase não é importante porque ela só serve para sustentar as coisas que estão ao redor dela e não para carregar o que seu significado nos diz.
A frase é simplória, circundada pelo mundo e frase nenhuma congela a força ou o movimento terrestre que nos enche com a ilusão de que é o sol que se põe e não nós.

::Bênção::

Moro perto do trabalho. Dois quarteirões, praticamente. Nesse minúsculo trajeto há um ponto de ônibus onde, dias desses, um senhor estava sentado. Com duas muletas encostadas, a cara surrada e cansada de quem não conhece paz, o aspecto alheio que se tem quando a dor é tanta que já virou um ruído de fundo e tudo é entendido a partir dela e a insanidade é iminente. Uma das pernas bastante inchada, coberta com faixas sujas, machadas de sangue, gordura, pó. Não sei dizer o que ele esperava, exatamente. O ônibus, a dor diminuir, um milagre…
Vi de longe que ele conversava com alguém do outro lado da rua, que também esperava, num outro ponto de ônibus. Não tentei entender, mas saquei que falava sobre os planos de Deus. Quando cheguei perto o suficiente, ele gritava pra uma mulher do outro lado “Olha pra mim! Fui tocado pela bênção de Deus!”.
Senti pena dele. Deus o tocou, por isso ele era daquele jeito. A cena continuou. Apareceu na outra esquina, na direção pra onde eu caminhava, um cãozinho. Imundo, mancando, com o corpo coberto por bicheiras e peladeiras. Mas conservava o ar simpático de melhor amigo de qualquer um que se dispusesse. O sujeito do ponto o chamou e começou a fazer carinho em suas orelhas. Quando passei por eles, nós três nos encaramos. Num instante curto, muito curto, a dor venceu a loucura no olhar daquele homem. Todo o sofrimento, humilhação, todos os problemas passaram por seus olhos em menos de um segundo. Depois ele abriu um sorriso (cínico? Ou o cinismo era meu?), “tá vendo? Até esse cachorrinho recebeu o toque de Deus. É abençoado como eu”.
Subi pensando numa passagem de Gênesis. Depois, pesquisando, descobri que era o capítulo 3, versículo 22. Já não sentia nada em relação ao homem, nem pena, nem tristeza. Mas me brotava (como sempre brota) um nojo dessa figura divina egoísta, infantil e mal intencionada, incapaz de olhar com amor para os que escolhem se arrastar em direção a ele. Seu primeiro ato oficial em relação à humanidade foi nos privar, ao mesmo tempo, do Éden, da árvore da sabedoria e da árvore da vida.
Enquanto o Demônio, o Prometeu hebraico, nos deu a humanidade e pagou caro por esse ato de amor (o primeiro ato de amor descrito no livro dos cristãos), Deus nos tomou todo o resto e ainda nos presenteou com maldições.
Um dia, dizem, nos veremos face a face com ele. Duvido. Mesmo que exista, seu desprezo é grande demais para que se dê o trabalho de justificar-se. Será como qualquer outro ditador, implacável e frio.

::Um espaço pra maldade. Um lugar pra fúria::

Lá no fundo está a morte. Acho que foi assim que o Cortázar começou o texto dele. E pra falar dessas coisas, melhor começar como ele: lá no fundo está a morte.
Mas há outras coisas, também.
Seu cheiro de perfume doce, misturado com cigarro. As bitucas com marcas rosadas de batom no chão da minha casa. Seu jeito de puxar meu cabelo, sinalizando que você estava pra gozar. Uma pinta bonita no pescoço branco.
E o amor selvagem, louco.
Antes da morte, havia esse amor louco, de gritos, copos jogados, de você me seguindo até os bares, fazendo escândalos e me arranhando a cara, enquanto os outros se afastavam, abafando sorrisos e fingindo susto. Porque era sempre isso e sempre assim.
Antes da morte e depois do amor havia esse ciúme que, pra mim, confirmava um e outro. Mas, talvez, eu estivesse errado.
Lembro da gente bebendo conhaque, você só de calcinha e eu olhando seu corpo, feliz, de quando em quando deixando a mão deslizar pela sua barriga, seu peito. Sei lá do que a gente falava na hora. Sei que notei algo diferente em você. Um arranhão na cintura? Um chupão? Um que eu tinha certeza que não tinha sido eu quem fez. Não sei o que percebi primeiro, porque continuei a perceber. Continuei a notar, sempre, mas preferi não fazer cena. Fiquei calado, me engasgando com as dúvidas.
A morte não estava mais tão lá no fundo. Mas o amor louco me doía. Era como o conhaque, me matava ao mesmo tempo que me tirava a dor de estar morrendo aos pouquinhos.
Você continuava linda, ciumenta, fogosa. Continuava a ser mais minha que dele (ainda). Ou não? E ele? Era uma pessoa só? Cada filho da puta num bar, na rua, nos lugares que você frequentava, emprego, escola, farmácia, era meu inimigo, meu adversário. Todos os filhos da puta. Todos, ou apenas um entre todos? Outra dúvida que me comia como uma cirrose, quando é que eu ia realmente te perder? Até quando você ficaria?
As perguntas todas iam me deixando louco como o nosso amor era louco e os seus ciúmes violentos. Ciumenta, mas me corneando! A morte, agora, estava na superfície. Andava atrás de mim, do lado das perguntas, das dúvidas, da loucura, do ódio, dos meus ciúmes.
E eu sem fazer um showzinho.
Quando eu paro pra lembrar, penso se não teria sido melhor jogar tudo na sua cara, te encher de porrada e sumir, ao invés de ficar cozinhando isso em mim.
Mas não. Só Fermentei as perguntas, os ciúmes, o amor louco. E a morte, a morte sempre andando do meu lado. Hoje, não. Hoje ela já voltou pro fundo.
Julio Cortázar, argentino, escreveu: Lá no fundo está a morte. E estava mesmo.
Não quis comprar revólver, acho que nem tinha dinheiro pra isso. Sem contar que só te dar um tiro não ia servir pra derramar tudo o que fermentei e destilei. Eu precisava derramar tudo. Pra isso, melhor a faca. Pra me livrar de tudo aos poucos, um golpe de cada vez.
Mas o mundo virou um sono pesado e sem imagens. E eu nem vi.
Quando acordei, estava todo ensanguentado. Não me sentia nem surpreso.
A polícia apareceu do nada me levou. A única coisa que eu consegui pensar enquanto era algemado foi “eu não cheguei a perceber. Eu nem aproveitei”.

::repetir até desacreditar::

Acordei cansado dos gênios. Com uma preguiça infinita de todos os intelectuais. Queria ler, mas a ideia de abrir um livro do Guimarães Rosa ou do Borges me embrulha o estômago. Ao mesmo tempo, continuo sentindo nojo dos escritores medíocres. Quero queimar todos, juntos. Barbara Delinsky, Drummond, Paulo Coelho, James Joyce, todos numa mesma fogueira.
Acordei em cima do muro. A cidade à minha frente e o coração no passado. Na cabeça, preguiça. Mas acho que preciso ler. Não qualquer coisa, mas preciso. E Preciso andar debaixo do sol. E preciso ficar em silêncio. Dormir sem sentir sono. Ficar imóvel sem que o corpo doa de ficar imóvel.
E enquanto  estiver imóvel, sentado em algum lugar, preciso ler as palavras certas, uma história sem a genialidade dos escritores que refazem a linguagem e sem a estupidez dos que escrevem pra ensinar alguma coisa.
Uma padaria ou um bar. Se for padaria, café. Se for bar, cerveja. Qualquer coisa que combine com o sol. Mas, pelo amor dos deuses e dos demônios, não escrever nada em guardanapos.
Uma manhã sem urgências. Comer sem fome, beber sem sede, perder tempo e não aprender nada. Cultivar a preguiça como num livro fácil.
A cidade do outro lado da porta parece estar muito longe, lá na frente. O coração dentro da cabeça parece estar muito longe, lá atrás, mas sempre depois da cidade.
As coisas não estão onde deveriam estar.