::inícios::

Mas é claro que uma mulher assim, com esse jeito de estar no mundo, de fugir de si, de arrumar estados temporários de existir, se aproximaria de mim. Sei ouvir música em silêncio, sei contar minhas desventuras para preencher o tempo, sei passar as mãos na mão dela de um jeito leve e sensual, que a deixa, apesar de tudo, meio tímida. Essa coisa de ver a adolescente onde está a mulher, de descortinar uma fragilidade que todo mundo tem. Ela se aproximou pelo que havia em mim que não remetia à vida dela e eu optei por não perguntar e não querer participar. Isso talvez a tenha feito ficar.
Ela definia assuntos vagos, “ontem vi um filme” ou “perdi a virgindade com meu vizinho, aos 14 anos” e me contava, nua, depois do nosso sexo, a falta de jeito com que um rapaz muito mais velho, mas tão inexperiente quanto ela, tentava, bêbado, coordenar penetração, ereção e ejaculação. Ria, concluindo “foi um desastre” e se virava para me encontrar encarando seu sorriso.
Evitar Melissa era o melhor jeito de me manter perto de Melissa. Ela confia em mim, porque não precisa me dar nada, podemos fingir, criar, nos distrair com coisas frívolas ou poéticas (se é que há diferença), caminhar pela rua da Bahia desde a praça da Liberdade até o centro, onde vamos nos juntar aos meninos hipsters do Malleta e eu vou me sentir levemente incomodado pela presença do sebo, mas vou pedir uma cerveja e assistir enquanto todos dançam.
Não dançar nos aproxima, também. Poderia nos afastar, mas não. Porque ela é uma mulher de espaços e vazios. Dança pra si, ou pra ser assistida. Quer que eu a observe- e eu observo. Todas as pessoas bêbadas, formam um balé caótico, um texto beat ao vivo. Há uma ligação entre nosso funk, cru e eletrônico e o bop dos anos 50, 60, que é negado pela maioria das pessoas, mas está ali. Melissa, alta, negra, dançando num ritual frenético que ela repetirá, mais tarde, pra mim em particular. A música criada num gueto cultural, negada por nossa sociedade, consumida cinicamente por pessoas que ampliam essas distâncias. Era o mesmo com o blues e o jazz dos anos 50. Era assim com Mardou, no livro que nos aproximou.
Melissa dança entre as pessoas e se liberta. Por um momento não há sebo, não há casa velha, não há Teodoro eternamente deprimido e magoado, ou Ulisses raivoso e pervertido. E eu percebo que esse meu afastamento da minha vida, dos meus contextos, do meu passado e do meu presente problemático, isso é estar com Melissa. E é bom. Não sei se quero que ela se vá. Não sei se estou à vontade com a ideia de transformar em lembrança, a pessoa que me ajuda a esquecer as minhas. Melissa dança e enquanto dança torna menores, os meus problemas.

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::Durante::

O cheiro doce de perfume, muito bom, me invade junto com uma pontada de dor na cabeça. Ressaca, sexo, um quarto na penumbra, essas imagens vão se desenhando primeiro no meu cérebro, antes que eu efetivamente abra os olhos para entender o ambiente. Melissa dorme de costas pra mim. Acompanho com meus olhos e mãos imaginárias a curva de suas costas, desde seu ombro direito, evidente, a asa da tatuagem enfeitando as costas, até os quadris pronunciados, a bunda redonda e macia, pouco musculosa e as pernas grossas, longas. Melissa é uma mulher alta, mas na horizontal, palavras como alta ou esguia, perdem um pouco do sentido. Melissa é uma mulher imensa e espetacular. Acho que de onde estou, a definição mais adequada é essa. Uma mulher tão grande que não cabe no apelido óbvio. “Mel” nunca definiria essa mulher, seus gestos, a certeza fingida que domina seus olhares, o movimento dos quadris enquanto ela esteve por cima de mim. Não, essa mulher só cabe dentro de seu nome completo. Melissa, rainha das abelhas. Voltam os olhos pelo seu corpo, ainda com as mãos imaginárias. A vontade de acariciá-la perde para o medo de que ela acorde. A vontade de vê-la acordada esbarra na dúvida: ela se vai quando acordar? A vontade de fumar me distrai.

::em linha::

A desesperança é sempre mais bonita em versos. A falta de propósito, o niilismo, o pessimismo crônico da vida de cada um adquirem uma nota de dignidade, um tom de “poema em linha reta” ou “tabacaria”, quando se colocam em frases quebradas, em estrofes. Mas não. Me recuso. Eu preciso da prosa, porque as imagens poéticas são um tanto hipócritas, principalmente pra quem não tem nada além delas. Melhor contar que fiquei parado, esperando o dia passar de frente pro relógio, sem música, sem literatura, acompanhado pelos cliques do ponteiro dos segundos, pelo barulho do motor da geladeira, pelo tremor do piso quando passa um caminhão e pela vontade de não existir (e essa vontade é tão diferente daquela vontade de morrer, que me espanta pensar que as pessoas as confundam!) do que dizer “observo o tempo escorrer para o fundo da ampulheta eterna do meu peito”. Não há ampulhetas. Só o relógio de parede que roubei na casa da minha ex, na última vez em que estive lá. Eu ainda tinha as chaves e na época senti que isso era autorização suficiente para continuar a frequentar a casa sem avisos, mesmo depois de tudo desfeito. Roubei o relógio num domingo. Ela não estava em casa. Como hoje, assisti o virar dos ponteiros por horas, delirando com todas as imagens de uma felicidade dela sem mim. E nesse dia eu quis morrer, diferente de hoje. Fui embora com o relógio, ela não tinha voltado. Me ligou na terça ou na quarta, pedindo as chaves. Não falou no relógio, não falou em polícia ou em privacidade. Só me perguntou se podia deixar as chaves com um amigo em comum, que como ela ou eu, não precisa de um nome. Não nos falamos mais. Não devolvi as chaves, mas não voltei à casa dela. Talvez tenha trocado as fechaduras. Talvez tenha se casado e se mudado. Acontece. Eu olho o relógio. A felicidade já não importa mais.

::mundo cruel, agora em versão “gatos”::

O sujeito que desentope o encanamento é baixinho, careca e falador. Comentava o serviço que estava fazendo, contava das diferenças entre essa e sua última vinda (quando eu não estava em casa) e seu estranhamento diante do novo entupimento, tão precoce. Se não tivesse chegado tão cedo, teria encontrado café e algo pra comer e estaríamos conversando até agora (e não haveria crônica). Cara legal, ele. Apesar da conversa e do trabalho de vasculhar os canos da casa com aquela infinita mola de metal, não deixou de notar o tamanho do meu gato, o Horácio. Parágrafo pra descrever o gato: Horácio é um gato alaranjado que um dia apareceu na biblioteca e se entocou na estante de revistas em quadrinhos. Era uma porcariazinha pouco maior que a minha mão. Demos pra uma usuária levar. Ele fugiu e voltou a se entocar nas prateleiras da Turma da Mônica e eu não resisti, resolvi adotá-lo. Pouco espaço, muita comida e toda a preguiça do mundo, fizeram com Horácio crescesse e alargasse consideravelmente. Um amigo o apelidou de “Bolácio”, o que é muito apropriado. Voltando ao encanador… desde a hora que chegou, enquanto que passava a sonda, verificava as torneira, ou quando esquecemos a porta aberta e o bicho tentou fugir, notei que ele lançava uns olhares divertidos na direção do meu gato, principalmente pra barriga do Bolá… quero dizer, do Horácio. O serviço ficou pronto, testamos as torneiras e não tinha nada vazando. Ele recolheu o equipamento e eu fui ajudar a colocar na Kombi. Quando estávamos saindo, o gato estava esticado perto da porta, fazendo o que sabe fazer melhor, que é nada. O homem olhou de novo pra ele e disse “um bicho gordo desse, dentro de casa, meu avô não perdoava…” Horácio fez uma cara entre espantado e ofendido. O bombeiro completou “Ele levava os gatinhos pro sítio e cevava os bichos, pra depois passar a faca. Nunca vi um sujeito gostar tanto de carne de gato”. Meu gato, com os olhos arregalados, deu dois passos pra trás, preocupado com aquilo ser uma tradição de família. Cevado ele sabia que estava. Olhou de mim pro sujeito, pedindo proteção. Pra sorte dele, não era tradição. Ele explicou, mais pro gato que pra mim, “não precisa ficar preocupado, que eu não gosto dessas coisas não. Tenho nojo. Mas meu avô…” e olhou pro gato, que realmente tem andado redondo e suculento como um coelhinho…

::3 telefonemas::

_Ismael?
_Oi?
_É a Natália.
_Hum…
_O Teo tá aqui.
_Na sua casa?
_Na rua, aqui de frente.
_Não tá na sua casa?
_Ismael, caralho! Vem buscar o Teo.
_Natália, eu não posso fazer nada, o Teo não é nenhum menino. Ele é livre pra ir e vir. Aposto que está lá do outro lado da rua, sem incomodar ninguém.
_Seu filho da puta…
_Ele está bêbado?
_Claro!
_Você chamou a polícia, Natália?
_Não, Ismael, eu tô ligando pra você!
_Você não chamou a polícia porque sabe que ia ouvir exatamente o que eu falei. Se ele está só sentado, não tem nada pra ser feito.

(Ela está desesperada, chorando. Eu me sinto um crápula. Tenho que buscar o Teo. Eu estou mentindo. Vou buscar o Teo, mas não me sinto um crápula. Eu tento, mas não consigo)

_Natália, ele está aí por sua causa. Porque você fez isso com ele. Acho que você merece passar um pouco do tormento dele. Mas vou buscar ele sim. Não diz isso pra ele. Não dá papo, não tenta se comunicar, entendeu? Ele tentou conversar com você?
_Ele bateu a campanhia até ela desarmar. Mas não fez mais nada. Foi pro outro lado da rua e está lá, sentado no passeio.
_Avanços!
_Vai à merda, Ismael. Vem buscar ele logo!
_Vocês vão precisar esperar quinze minutos, pra dar meu horário de almoço. Aí eu desço. Não deixa ele conversar com você. Não chega na janela. Se ele insistir e eu não tiver chegado, chama a polícia.
_… tá.
_ Natália?
_Oi?
_Vai à merda, você.

………….

_Quem tá falando?
_Luciana?
_Ismael, aconteceu uma coisa grave.
_Tomara.
_Puta que pariu, cara. Deixa de ser escroto! Eu não ia ligar se fosse qualquer coisa.
_Eu ainda não sei porque você ligou. O que aconteceu?
_… O Ulisses. Tá no hospital.
_Que você tá fazendo com o Ulisses, Luciana?
_Foi coincidência. Eu estava na rua e encontrei com ele. Ismael, a gente foi assaltado.
_Como?
_Deram uma facada no Ulisses, Ismael. A gente tá no Belo Horizonte.
_Puta que pariu…

(ela está dando instruções. Não estou ouvindo. Estou, aliás, me esforçando pra não ouvir e torcendo pro Ulisses morrer. É o mínimo, pra me fazer passar por isso)

_…e precisa de sangue. Qual seu tipo?
_Acho que A alguma coisa. Mas eu bebi ontem.
_Foda-se. Vem logo.
_Vou descer.
_Ismael… eu tô com medo, cara.
_…calma. Esse puto não vai morrer assim não.
_Não é isso.
_É o quê?
_…
_Eu também, Lu. Mas depois a gente pensa nisso.

…………………

_Pronto!
_Oi. Aqui é a Nádia. O João tá por aí?
_Ei, Nádia. É o Ismael. O João tá dormindo. Quer deixar algum recado?
_Tá dormindo até agora?
_Olha, então… ele chegou deve ter umas duas horas, só. Mas não vai pensar mal dele, hein? Tava trabalhando. Tocou a noite inteira num bar.
_Ele tava trabalhando mesmo, Ismael?
-Tava, sim, Nádia. Pode ficar despreocupada. Eu aviso que a senhora ligou assim que ele acordar. Como tá tudo aí?
_Tudo bem. Eu tava ligando só pra saber se tava tudo bem mesmo. Se vocês não estão precisando de nada…
_Tá tudo tranquilo, sim. E com o Ulisses de molho, sem aparecer, tranquilo até demais. O João tocou num lugar bem legal ontem, era pra eu ter ido, mas tenho andado meio desanimado.
_Eu fico mais tranquila quando você vai com ele. Você está sentindo alguma coisa?

(eu penso num monte de gente, vários palavrões e em algumas crises de sentimentalismo barato. Eu quero dizer à mãe do João que tenho vontade de morrer. Quero explicar que tudo ao meu redor não vale a pena, é medíocre demais pra quantidade de sofrimento que causa. Dona Nádia, eu desisto. Eu sinto a garganta secar. Merda de vida)

_Tô não. É só porque fiz umas horas extras essa semana. Tô cansado, só isso.
_Então aproveita que é sábado e descansa, menino. Vocês tão muito rueiros! Manda um beijo pro João e outro pra você.
_Um beijo, Nádia. Até!
_Cuida dele, hein? Tchauzinho.
_Pode deixar. Beijo.

::tristeza::

No meio da madrugada, o calor de meio dia oprime como uma ditadura. Oprime com o peso de todo o céu, que parece inchar como um grande cobertor de fumaça. O céu é pesado e quente. De repente, sinto que vai chover. Só que a chuva não vem como um alívio. Ela aparece aos poucos, num chuvisco de gotas grossas e espaçadas, grandes bagos de água se arrebentando com escândalo nos tetos de alumínio que cobrem as garagens. Não há, em verdade, nada de alívio. A chuva é um choro como o choro de quem já não aguenta mais, o choro de quem desistiu de lutar, o choro que representa a derrota máxima ou a tristeza amargurada. O chover é cansaço feito de convulsões ritmadas.
Eu observo esse céu opressivo e seus soluços direcionados a nós. Na sala, meu gato está feliz, correndo atrás das mariposas que vieram pela janela. A tranquilidade infantil do meu gato aumenta minha preocupação, por me parecer quase a mesma tranquilidade dos que acham que vai ficar tudo em paz porque agora temos chuva. Não há paz, porque derrotamos o próprio céu de uma forma tão completa que ele parece ter se descoberto vivo, só pra sentir humanamente essa derrota. Resolvo dormir. Preciso me preparar porque não sei se o céu derrotado tem a intenção de se vingar. Apenas desconfio.

::Tauromaquia 1::

Teseu amarra uma ponta do fio de lá no dedo de Ariadne. Os dois se encaram, enquanto ele desliza a mão sobre seu rosto e seu pescoço. Teseu se despede com um beijo e observa a entrada do labirinto. Poderia dizer uma frase de efeito, como “Isso acaba aqui” ou qualquer outra bobagem, mas não diz. Entra em silêncio e sente toda a profundidade do ato. Não caminha com a inocência heroica de quem tem certeza de que faz o bem. Nem com o ódio e a sede de sangue, tão comuns aos caçadores. Anda pelos corredores como um velho bibliotecário num imenso salão cheio de estantes de livros, perdido diante da imensidão de seu acervo. Adentra o labirinto de Minos levando a espada numa mão, um novelo na outra e um escudo preso às costas. Como se distribuem espada e novelo? Qual o objeto vai em sua mão direita? Não sei, sou apenas um escritor canhoto. Teseu caminha. O cheiro de sangue e podridão, os ossos e a carne apodrecida das outras vítimas e de outros heróis não o impressiona, mas deixa um incômodo visível em seus sentidos. No entanto as paredes não apresentam as mesmas marcas que o chão por onde ele caminha. São pedra polida, limpa, conduzindo a inúmeros corredores e diversos becos e entradas que dão para grandes vãos sem saída. Teseu nunca irá entrar em todos e isso deixa nele a sensação de dever incompleto. Matar o grande touro de Minos e não conhecer o labirinto. Seu labirinto.
A exploração o leva aonde é necessário que vá, em qualquer tempo e atravessando qualquer quantidade de corredores errados: ao corredor certo e ao coração do labirinto. O cheiro de morte aumenta e pela primeira vez ele começa a perceber que as paredes tem tons mais escuros e aqui não há a limpeza do resto da estrutura. Há cadáveres por todos os lados, manchas cor de ferrugem de sangue e restos humanos espalhados.
O coração do homem começa a se turvar e o sangue do caminho passa a ser seu sangue e sua ira. Ele abandona o novelo e passa a carregar o escudo no braço. Ele sabe onde está e sabe por onde caminhar na trilha sangrenta. Quando o ódio está em seu ápice é que Teseu se depara com o Minotauro.
Não existe diálogo, preparação ou avaliação entre os adversários. O monstro é apenas o monstro irracional. O herói é apenas o monstro irracional. Os dois avançam um para o outro. A força do Minotauro parece ser insuperável. Teseu não pode contra seus avanços. Precisa escapar das investidas com muita agilidade. Precisa não se desviar demais, não fugir. Precisa arquear o corpo ligeiramente para o lado, uma passada fugaz e assistir a imensidão furiosa avançar. Eles se cruzam uma, duas vezes, sem que qualquer um se toque. Então, na terceira investida, a espada atinge o flanco do minotauro, que vacila.
Entre o conhecer e o negar da dor, ele se ergue, ainda mais furioso e ataca outra vez. Seu descontrole é a arma de Teseu. Um novo passo para o lado e uma nova estocada. O grande touro se ajoelha e urra.
Tomado pela coragem e crueldade, Teseu avança e levanta o rosto do touro, exibindo seu pescoço. A lâmina atravessa a garganta do Minotauro e seu olhos se tornam opacos, enquanto se contorce o grande corpo. O homem banhado em sangue sobrepujou o monstro, tornando-se (clichê dos clichês) um monstro, ele mesmo. Ele é o grande touro de Minos, que pode vagar livremente pra dentro e pra fora do labirinto e de si.
Ariadne o aguarda. A culpa é toda dela.