::Defected::

Me sinto um tanto destruído, como se o sangue não corresse. Tenho um verso preso na mente, mas não consigo esticar esse verso num texto inteiro, num poema, não consigo transformá-lo em qualquer coisa. Apenas repito mentalmente a frase, que me reflete, e me pergunto se há algo mais, outros significados, um caminho e qualquer conclusão. Não. Apenas isso e apenas ela. Me sinto destruído, como se meu sangue não corresse. Sinto que deveria me esquivar das minhas verdades, transformando minhas frases em textos ou poemas, mas não há força física, narrativa, criativa. Sou lento e… me sinto destruído. Nada em mim pulsa.
Meu coração é um bloco pesado de chumbo.
Meu coração é um bloco pesado de chumbo.
Meu coração é um bloco pesado de chumbo.
Meu coração é um bloco pesado de chumbo.
Meu sangue não corre mais.

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::mundo cruel, agora em versão “gatos”::

O sujeito que desentope o encanamento é baixinho, careca e falador. Comentava o serviço que estava fazendo, contava das diferenças entre essa e sua última vinda (quando eu não estava em casa) e seu estranhamento diante do novo entupimento, tão precoce. Se não tivesse chegado tão cedo, teria encontrado café e algo pra comer e estaríamos conversando até agora (e não haveria crônica). Cara legal, ele. Apesar da conversa e do trabalho de vasculhar os canos da casa com aquela infinita mola de metal, não deixou de notar o tamanho do meu gato, o Horácio. Parágrafo pra descrever o gato: Horácio é um gato alaranjado que um dia apareceu na biblioteca e se entocou na estante de revistas em quadrinhos. Era uma porcariazinha pouco maior que a minha mão. Demos pra uma usuária levar. Ele fugiu e voltou a se entocar nas prateleiras da Turma da Mônica e eu não resisti, resolvi adotá-lo. Pouco espaço, muita comida e toda a preguiça do mundo, fizeram com Horácio crescesse e alargasse consideravelmente. Um amigo o apelidou de “Bolácio”, o que é muito apropriado. Voltando ao encanador… desde a hora que chegou, enquanto que passava a sonda, verificava as torneira, ou quando esquecemos a porta aberta e o bicho tentou fugir, notei que ele lançava uns olhares divertidos na direção do meu gato, principalmente pra barriga do Bolá… quero dizer, do Horácio. O serviço ficou pronto, testamos as torneiras e não tinha nada vazando. Ele recolheu o equipamento e eu fui ajudar a colocar na Kombi. Quando estávamos saindo, o gato estava esticado perto da porta, fazendo o que sabe fazer melhor, que é nada. O homem olhou de novo pra ele e disse “um bicho gordo desse, dentro de casa, meu avô não perdoava…” Horácio fez uma cara entre espantado e ofendido. O bombeiro completou “Ele levava os gatinhos pro sítio e cevava os bichos, pra depois passar a faca. Nunca vi um sujeito gostar tanto de carne de gato”. Meu gato, com os olhos arregalados, deu dois passos pra trás, preocupado com aquilo ser uma tradição de família. Cevado ele sabia que estava. Olhou de mim pro sujeito, pedindo proteção. Pra sorte dele, não era tradição. Ele explicou, mais pro gato que pra mim, “não precisa ficar preocupado, que eu não gosto dessas coisas não. Tenho nojo. Mas meu avô…” e olhou pro gato, que realmente tem andado redondo e suculento como um coelhinho…

::leitora::

Ter leitor é uma coisa bonita que acontece quando a gente começa a escrever. Vem uns teóricos doidos pra dizer que a gente lança um texto no espaço e o leitor pega e reconstrói e tudo mais, mas isso é pouco. Quando a Camila começou a conversar comigo sobre as coisas que ela leu, eu me senti muito bem. Senti que havia um propósito que não era hedonista na minha escrita. Senti que estava dividindo um doce.
Li diversos comentáros espalhados no meio do blog e vi uma vontade sincera dela de internalizar meu texto, de fazer com que algo que pertence ao meu mundo pessoal (às vezes ultrapessoal, confessional, quase intransferível) também faça sentido na vida dela.
Quando o escritor é importante, quando virou um lendário nome na literatura mundial, é normal que os leitores se sintam íntimos dele, que pensem que existe uma conecção de ideias entre suas vidas e a vida do escritor, porque um determinado livro ou texto saiu de uma mente pra fazer sentido pra outra.
Comigo é o contrário. Vou logo tratando como velho amigo alguém que me lê. Acho que, menos por uma noção da infita conexão astrológica, cósmica, do sétimo dia, proporcionada pelas chaves de significação do texto e mais porque eu acho que pra me ler, tem que gostar de mim. Minha literatura me soa como a mania que a gente tem que perdoar num amigo.
E daí que a Camila sempre foi uma presença sorridente e simpática, mas eu ainda não tinha pensado nela, assim, objetivamente, como minha amiga.
Virou em amiga depois que começou a me ler. Ficou “de casa”. Chega no messenger me chamando de “Zé”. E o mais engraçado é que desde que eu a ganhei como leitora, a gente nem se encontrou mais.
Essas coisas botam a gente pra pensar profundamente sobre alguns assuntos: “até onde a gente consegue avaliar com clareza aquilo que escreve?”, “quais conexões a literatura pode ajudar a criar entre as pessoas?”, “será que o marido dela bebe cerveja?”
Esse texto está aqui porque eu tinha prometido a ela. Eu ia dizer nesse texto que ela é meu quarto leitor e a quinta Camila. Mas é bobagem.
Primeiro porque como leitor, Camila é um intermediário da Simone com Vivian, uma pessoa que me leu porque me achava uma pessoa simpática e continuou a ler porque gostou mais da literatura que de mim.
Depois porque, em matéria de Camilas, das quatro outras só uma ainda é presente (apesar de nos vermos pouco) e é minha amiga (minha best friend forever) e só me dá boa notícia. Então não vale a pena insistir nessa do nome. É só um nome comum e bonito. Como diz meu pai, nome de mulher bonita e complicada.
De resto, Camila, o mundo é cruel e a gente sofre e tenta ser feliz. Não sofrer às vezes parece tão raro que vira um modelo de felicidade. Às vezes, não.

::tristeza::

No meio da madrugada, o calor de meio dia oprime como uma ditadura. Oprime com o peso de todo o céu, que parece inchar como um grande cobertor de fumaça. O céu é pesado e quente. De repente, sinto que vai chover. Só que a chuva não vem como um alívio. Ela aparece aos poucos, num chuvisco de gotas grossas e espaçadas, grandes bagos de água se arrebentando com escândalo nos tetos de alumínio que cobrem as garagens. Não há, em verdade, nada de alívio. A chuva é um choro como o choro de quem já não aguenta mais, o choro de quem desistiu de lutar, o choro que representa a derrota máxima ou a tristeza amargurada. O chover é cansaço feito de convulsões ritmadas.
Eu observo esse céu opressivo e seus soluços direcionados a nós. Na sala, meu gato está feliz, correndo atrás das mariposas que vieram pela janela. A tranquilidade infantil do meu gato aumenta minha preocupação, por me parecer quase a mesma tranquilidade dos que acham que vai ficar tudo em paz porque agora temos chuva. Não há paz, porque derrotamos o próprio céu de uma forma tão completa que ele parece ter se descoberto vivo, só pra sentir humanamente essa derrota. Resolvo dormir. Preciso me preparar porque não sei se o céu derrotado tem a intenção de se vingar. Apenas desconfio.

::Comentários rápidos, esparsos e sem sentido::

_Nossa, eu tenho um blog!
_Não gosto de auto-ajuda. A não ser quando eu escrevo. Aí eu adoro dar lições.
_O Facebook e o Whatsapp acabaram de matar duas coisas em mim, que eu realmente nunca consegui desenvolver: A capacidade de discorrer sobre uma ideia por páginas e páginas, continuamente; A paciência para os silêncios e os vazios nos diálogos.
Quando converso com alguém que me olha em silêncio, ou que estende uma vogal, ou que diz uma frase sem sentido semântico imediato, eu me disperso ou fico nervoso ou as duas coisas. E tento encerrar o assunto.
_Eu guardo rancor. Eu odeio pessoas e coisas. Eu faço coisas boas pras pessoas. Sou rabugento e ao mesmo tempo bem humorado. Sei ser bom com a perfeita consciência de não ser único. Isso é uma razão do incômodo com a auto-ajuda. A polarização dos comportamentos. Os objetivos numa suposta e impossível evolução. Essa parametrização do bem e da justiça. E principalmente, acima de tudo, odeio o óbvio da auto-ajuda. Os conselhos manjados. “Não se reprima”. “Livre-se do que é desnecessário”. “Tire dias de folga”. A auto-ajuda foge do que nos aflige. Foge da necessidade que as pessoas têm de mentir umas pras outras. Foge das frustrações que são cíclicas. E do fato supremo de que “não existe lei de causa e efeito”, a vida é um absurdo aleatório.
_Talvez eu precise assistir a monólogos no teatro ou filmes com longas tomadas, de close nas expressões faciais. Pra dar conta de ficar quieto. Pra reaprender a pensar.
_Sempre me senti esfacelar. É uma coisa ridícula e melosa de alma que se desprende e eu não devia usar esses termos, mas é verdade. Sinto que minha alma me escapa e quando eu registro as coisas, ou invento as coisas, ou conto histórias, estou aproveitando esse desgaste. Não invertendo, nem nada. Apenas dando sentido a essa constante fragmentação. E não tenho escrito, então imaginem como tem sido difícil viver…
_Vez por outra, desenho.

::Sem títulos::

Não é uma postagem sobre futebol.

Tinha ido ali pra tentar ser gerente do centro cultural onde trabalho. Nesse meio tempo, também tentei ser feliz. Nenhum dos dois deu certo, voltei.
Em breve, literatura. Mas antes, um sarau!

::Café Viena – versão mundo cruel::

Há algum tempo conheci Dora Delano, éramos ambos leitores de um blog sobre relacionamentos desastrados. Ela própria possui um blog, o “Desventuras Amorosas” (listado no seleto grupo à nossa direita), onde fala de… bem… desventuras amorosas. E da Capes.
Sempre tive um cuidado meio devocional com essa moça. Era simpática, inteligente e, o mais importante de tudo, um dos meus três leitores. Não fosse uma relação virtual, levaria café quente e biscoitos à ela sempre que quisesse vê-la lendo e tecendo comentários sobre o que escrevo.
Graças ao Nerito, a condição dessa interação virtual deu um passo interessante. Meu amigo, ainda mais atencioso e cuidadoso com seus leitores que eu (diga-se de passagem, não sei como ele faz isso, já que tem muito mais leitores que eu. Muito mais!), aproximou-se de Dora Delano rasgando um primeiro véu virtual. Ela apresentou-se à nós pra além dos pseudônimos e de repente eu convivia, através da linha do tempo do Facebook, com uma mulher muito diversa da que eu desenhava no blog.
Enquanto Dora Delano é uma moça insegura (à respeito de si, de seus textos, dos amores e do que esperar da vida), Vivian Matos se mostrou (ainda virtualmente) uma mulher decidida, alegre, vibrante e engajada. Dora Delano tem uma foto que mostra uma mulher bonita e oblíqua, que não mostra os olhos e esconde o sorriso com a mão. Vivian Matos escancara um sorriso moreno e luminoso. Coisa sincera. As opiniões políticas muito semelhantes às minhas faziam com que eu procurasse ler os artigos que ela compartilhava, a curtir as fotos de passeios e festas e continuar, da minha mineira distância, nessa postura de reverência. Não era mais só uma leitora. Eu descobri que tinha uma leitora de alto nível. Alguém que não me leria se não acreditasse na minha literatura.
Há pouco tempo consegui (um pouco por acaso e novamente através da intermediação do Nerito e da Simone) connhecer pessoalmente a Vivian. Ela e o namorado, Pedro. Vieram fazer um passeio por BH e conseguimos assentar num bar pra conversar e beber.
Vivian é diferente de Vivian Matos e Dora. Mas conhecê-la pessoalmente iluminou muito as duas personagens pra mim. Ela é pequena e fala baixo. Os olhos mostram uma grande preocupação em absorver o mundo inteiro, são olhos em busca de compreensão. As mãos, quase sempre entrelaçadas às de Pedro, explicam pra ele e pra todo mundo ao redor que sim, o amor existe e nem sempre se constrói no vazio e termina em desaventurança. Vivian e Pedro formam um casal bonito, desses que lembram a letra de “Leo e Bia”.
Ambos de uma calma pouco comum aos cariocas (já tive minhas temporadas pelo Rio. A cada visita, aumenta a paixão pela cidade), estavam muito mais preocupados em nos ouvir, em saber de nossas caóticas ideias e dos movimentos incertos de cada um de nós por essa BH decadente e em ruínas, do que em falar. Os filhotes de lobo estavam felizes e brincalhões. Queríamos ser os melhores anfitriões do mundo.
Foi uma noite das mais interessantes. O álcool sempre atrapalha meu objetivo de observar as coisas com calma e aprender as pessoas. Acabo me tornando expansivo demais, canastrão demais, com histórias demais pra contar.
Mesmo assim, não pude fugir da sensação de calma e de alegria que o casal transmitia. Na hora de ir embora, quase desci com eles até o hotel, só pra esticar a prosa mais um pouquinho. Mas era tarde. Cariocas em Minas dormem cedo (e acreditam no que vem escrito nos cardápios).
Agora Dora fez um texto que é a coisa mais fofa, comentando esse encontro. E desfazendo as impressões que ela construiu sobre nós, a partir de nossos textos. E pintou os filhotes de lobo brincalhões que somos quando nos ajuntamos.
Aproveito esse momento, Dora Delano, pra dizer a você que não fique nem só com minha aparência literária, nem com a do companheiro de boteco. Até porque vários dos meus amigos me definiriam sem medo como um ébrio  ermitão sisudo. E não se sinta uma caçulinha. Você é mais escritora que eu. Ou tão escritora quanto eu, pra evitar a auto flagelação.
Em função dessa vida louca e impossível de gerenciar (quem apostaria, por exemplo, que naquela noite eu me sentaria pra desenhar na Praça da Liberdade? E que isso fez com que eu chegasse ao centro no momento exato de pegar meu ônibus, sem precisar ficar esperando.), por causa mesmo do ritmo acelerado que te trouxe aqui (você veio pra descansar, não é?) é que eu acredito que não é impossível contar com as companhias de Você e Pedro pra um chopp no Amarelinho, aí no Rio. Quando? Sei lá. citando o Milton Nascimento “qualquer dia, amigo, eu volto a te encontrar”.