::Bênção::

Moro perto do trabalho. Dois quarteirões, praticamente. Nesse minúsculo trajeto há um ponto de ônibus onde, dias desses, um senhor estava sentado. Com duas muletas encostadas, a cara surrada e cansada de quem não conhece paz, o aspecto alheio que se tem quando a dor é tanta que já virou um ruído de fundo e tudo é entendido a partir dela e a insanidade é iminente. Uma das pernas bastante inchada, coberta com faixas sujas, machadas de sangue, gordura, pó. Não sei dizer o que ele esperava, exatamente. O ônibus, a dor diminuir, um milagre…
Vi de longe que ele conversava com alguém do outro lado da rua, que também esperava, num outro ponto de ônibus. Não tentei entender, mas saquei que falava sobre os planos de Deus. Quando cheguei perto o suficiente, ele gritava pra uma mulher do outro lado “Olha pra mim! Fui tocado pela bênção de Deus!”.
Senti pena dele. Deus o tocou, por isso ele era daquele jeito. A cena continuou. Apareceu na outra esquina, na direção pra onde eu caminhava, um cãozinho. Imundo, mancando, com o corpo coberto por bicheiras e peladeiras. Mas conservava o ar simpático de melhor amigo de qualquer um que se dispusesse. O sujeito do ponto o chamou e começou a fazer carinho em suas orelhas. Quando passei por eles, nós três nos encaramos. Num instante curto, muito curto, a dor venceu a loucura no olhar daquele homem. Todo o sofrimento, humilhação, todos os problemas passaram por seus olhos em menos de um segundo. Depois ele abriu um sorriso (cínico? Ou o cinismo era meu?), “tá vendo? Até esse cachorrinho recebeu o toque de Deus. É abençoado como eu”.
Subi pensando numa passagem de Gênesis. Depois, pesquisando, descobri que era o capítulo 3, versículo 22. Já não sentia nada em relação ao homem, nem pena, nem tristeza. Mas me brotava (como sempre brota) um nojo dessa figura divina egoísta, infantil e mal intencionada, incapaz de olhar com amor para os que escolhem se arrastar em direção a ele. Seu primeiro ato oficial em relação à humanidade foi nos privar, ao mesmo tempo, do Éden, da árvore da sabedoria e da árvore da vida.
Enquanto o Demônio, o Prometeu hebraico, nos deu a humanidade e pagou caro por esse ato de amor (o primeiro ato de amor descrito no livro dos cristãos), Deus nos tomou todo o resto e ainda nos presenteou com maldições.
Um dia, dizem, nos veremos face a face com ele. Duvido. Mesmo que exista, seu desprezo é grande demais para que se dê o trabalho de justificar-se. Será como qualquer outro ditador, implacável e frio.

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::Defected::

Me sinto um tanto destruído, como se o sangue não corresse. Tenho um verso preso na mente, mas não consigo esticar esse verso num texto inteiro, num poema, não consigo transformá-lo em qualquer coisa. Apenas repito mentalmente a frase, que me reflete, e me pergunto se há algo mais, outros significados, um caminho e qualquer conclusão. Não. Apenas isso e apenas ela. Me sinto destruído, como se meu sangue não corresse. Sinto que deveria me esquivar das minhas verdades, transformando minhas frases em textos ou poemas, mas não há força física, narrativa, criativa. Sou lento e… me sinto destruído. Nada em mim pulsa.
Meu coração é um bloco pesado de chumbo.
Meu coração é um bloco pesado de chumbo.
Meu coração é um bloco pesado de chumbo.
Meu coração é um bloco pesado de chumbo.
Meu sangue não corre mais.

::mundo cruel, agora em versão “gatos”::

O sujeito que desentope o encanamento é baixinho, careca e falador. Comentava o serviço que estava fazendo, contava das diferenças entre essa e sua última vinda (quando eu não estava em casa) e seu estranhamento diante do novo entupimento, tão precoce. Se não tivesse chegado tão cedo, teria encontrado café e algo pra comer e estaríamos conversando até agora (e não haveria crônica). Cara legal, ele. Apesar da conversa e do trabalho de vasculhar os canos da casa com aquela infinita mola de metal, não deixou de notar o tamanho do meu gato, o Horácio. Parágrafo pra descrever o gato: Horácio é um gato alaranjado que um dia apareceu na biblioteca e se entocou na estante de revistas em quadrinhos. Era uma porcariazinha pouco maior que a minha mão. Demos pra uma usuária levar. Ele fugiu e voltou a se entocar nas prateleiras da Turma da Mônica e eu não resisti, resolvi adotá-lo. Pouco espaço, muita comida e toda a preguiça do mundo, fizeram com Horácio crescesse e alargasse consideravelmente. Um amigo o apelidou de “Bolácio”, o que é muito apropriado. Voltando ao encanador… desde a hora que chegou, enquanto que passava a sonda, verificava as torneira, ou quando esquecemos a porta aberta e o bicho tentou fugir, notei que ele lançava uns olhares divertidos na direção do meu gato, principalmente pra barriga do Bolá… quero dizer, do Horácio. O serviço ficou pronto, testamos as torneiras e não tinha nada vazando. Ele recolheu o equipamento e eu fui ajudar a colocar na Kombi. Quando estávamos saindo, o gato estava esticado perto da porta, fazendo o que sabe fazer melhor, que é nada. O homem olhou de novo pra ele e disse “um bicho gordo desse, dentro de casa, meu avô não perdoava…” Horácio fez uma cara entre espantado e ofendido. O bombeiro completou “Ele levava os gatinhos pro sítio e cevava os bichos, pra depois passar a faca. Nunca vi um sujeito gostar tanto de carne de gato”. Meu gato, com os olhos arregalados, deu dois passos pra trás, preocupado com aquilo ser uma tradição de família. Cevado ele sabia que estava. Olhou de mim pro sujeito, pedindo proteção. Pra sorte dele, não era tradição. Ele explicou, mais pro gato que pra mim, “não precisa ficar preocupado, que eu não gosto dessas coisas não. Tenho nojo. Mas meu avô…” e olhou pro gato, que realmente tem andado redondo e suculento como um coelhinho…

::leitora::

Ter leitor é uma coisa bonita que acontece quando a gente começa a escrever. Vem uns teóricos doidos pra dizer que a gente lança um texto no espaço e o leitor pega e reconstrói e tudo mais, mas isso é pouco. Quando a Camila começou a conversar comigo sobre as coisas que ela leu, eu me senti muito bem. Senti que havia um propósito que não era hedonista na minha escrita. Senti que estava dividindo um doce.
Li diversos comentáros espalhados no meio do blog e vi uma vontade sincera dela de internalizar meu texto, de fazer com que algo que pertence ao meu mundo pessoal (às vezes ultrapessoal, confessional, quase intransferível) também faça sentido na vida dela.
Quando o escritor é importante, quando virou um lendário nome na literatura mundial, é normal que os leitores se sintam íntimos dele, que pensem que existe uma conecção de ideias entre suas vidas e a vida do escritor, porque um determinado livro ou texto saiu de uma mente pra fazer sentido pra outra.
Comigo é o contrário. Vou logo tratando como velho amigo alguém que me lê. Acho que, menos por uma noção da infita conexão astrológica, cósmica, do sétimo dia, proporcionada pelas chaves de significação do texto e mais porque eu acho que pra me ler, tem que gostar de mim. Minha literatura me soa como a mania que a gente tem que perdoar num amigo.
E daí que a Camila sempre foi uma presença sorridente e simpática, mas eu ainda não tinha pensado nela, assim, objetivamente, como minha amiga.
Virou em amiga depois que começou a me ler. Ficou “de casa”. Chega no messenger me chamando de “Zé”. E o mais engraçado é que desde que eu a ganhei como leitora, a gente nem se encontrou mais.
Essas coisas botam a gente pra pensar profundamente sobre alguns assuntos: “até onde a gente consegue avaliar com clareza aquilo que escreve?”, “quais conexões a literatura pode ajudar a criar entre as pessoas?”, “será que o marido dela bebe cerveja?”
Esse texto está aqui porque eu tinha prometido a ela. Eu ia dizer nesse texto que ela é meu quarto leitor e a quinta Camila. Mas é bobagem.
Primeiro porque como leitor, Camila é um intermediário da Simone com Vivian, uma pessoa que me leu porque me achava uma pessoa simpática e continuou a ler porque gostou mais da literatura que de mim.
Depois porque, em matéria de Camilas, das quatro outras só uma ainda é presente (apesar de nos vermos pouco) e é minha amiga (minha best friend forever) e só me dá boa notícia. Então não vale a pena insistir nessa do nome. É só um nome comum e bonito. Como diz meu pai, nome de mulher bonita e complicada.
De resto, Camila, o mundo é cruel e a gente sofre e tenta ser feliz. Não sofrer às vezes parece tão raro que vira um modelo de felicidade. Às vezes, não.

::tristeza::

No meio da madrugada, o calor de meio dia oprime como uma ditadura. Oprime com o peso de todo o céu, que parece inchar como um grande cobertor de fumaça. O céu é pesado e quente. De repente, sinto que vai chover. Só que a chuva não vem como um alívio. Ela aparece aos poucos, num chuvisco de gotas grossas e espaçadas, grandes bagos de água se arrebentando com escândalo nos tetos de alumínio que cobrem as garagens. Não há, em verdade, nada de alívio. A chuva é um choro como o choro de quem já não aguenta mais, o choro de quem desistiu de lutar, o choro que representa a derrota máxima ou a tristeza amargurada. O chover é cansaço feito de convulsões ritmadas.
Eu observo esse céu opressivo e seus soluços direcionados a nós. Na sala, meu gato está feliz, correndo atrás das mariposas que vieram pela janela. A tranquilidade infantil do meu gato aumenta minha preocupação, por me parecer quase a mesma tranquilidade dos que acham que vai ficar tudo em paz porque agora temos chuva. Não há paz, porque derrotamos o próprio céu de uma forma tão completa que ele parece ter se descoberto vivo, só pra sentir humanamente essa derrota. Resolvo dormir. Preciso me preparar porque não sei se o céu derrotado tem a intenção de se vingar. Apenas desconfio.

::Comentários rápidos, esparsos e sem sentido::

_Nossa, eu tenho um blog!
_Não gosto de auto-ajuda. A não ser quando eu escrevo. Aí eu adoro dar lições.
_O Facebook e o Whatsapp acabaram de matar duas coisas em mim, que eu realmente nunca consegui desenvolver: A capacidade de discorrer sobre uma ideia por páginas e páginas, continuamente; A paciência para os silêncios e os vazios nos diálogos.
Quando converso com alguém que me olha em silêncio, ou que estende uma vogal, ou que diz uma frase sem sentido semântico imediato, eu me disperso ou fico nervoso ou as duas coisas. E tento encerrar o assunto.
_Eu guardo rancor. Eu odeio pessoas e coisas. Eu faço coisas boas pras pessoas. Sou rabugento e ao mesmo tempo bem humorado. Sei ser bom com a perfeita consciência de não ser único. Isso é uma razão do incômodo com a auto-ajuda. A polarização dos comportamentos. Os objetivos numa suposta e impossível evolução. Essa parametrização do bem e da justiça. E principalmente, acima de tudo, odeio o óbvio da auto-ajuda. Os conselhos manjados. “Não se reprima”. “Livre-se do que é desnecessário”. “Tire dias de folga”. A auto-ajuda foge do que nos aflige. Foge da necessidade que as pessoas têm de mentir umas pras outras. Foge das frustrações que são cíclicas. E do fato supremo de que “não existe lei de causa e efeito”, a vida é um absurdo aleatório.
_Talvez eu precise assistir a monólogos no teatro ou filmes com longas tomadas, de close nas expressões faciais. Pra dar conta de ficar quieto. Pra reaprender a pensar.
_Sempre me senti esfacelar. É uma coisa ridícula e melosa de alma que se desprende e eu não devia usar esses termos, mas é verdade. Sinto que minha alma me escapa e quando eu registro as coisas, ou invento as coisas, ou conto histórias, estou aproveitando esse desgaste. Não invertendo, nem nada. Apenas dando sentido a essa constante fragmentação. E não tenho escrito, então imaginem como tem sido difícil viver…
_Vez por outra, desenho.

::Sem títulos::

Não é uma postagem sobre futebol.

Tinha ido ali pra tentar ser gerente do centro cultural onde trabalho. Nesse meio tempo, também tentei ser feliz. Nenhum dos dois deu certo, voltei.
Em breve, literatura. Mas antes, um sarau!