::o mito::

Onde é que se encontra a pessoa que ainda ontem vivia tão lindamente minha vida?
Perguntei isso ao Osmar, que se contentou em me encarar com ar de entediado e voltar seus sentidos para uma maçã. Maldito coelho temperamental. Ou talvez o temperamental seja eu.
Fico sentado na sala com um grande caneco de café observando o limo nas paredes. Ao longo dos dias o limo cresce, resseca, depois cresce de novo e a casa vai adquirindo camadas e camadas de verde. Isso não é bom, mas entre observar-sentir e me levantar-limpar acabo optando pela alternativa um. As ações me parecem fúteis, mesmo quando todo mundo lá fora diz que eu seria salvo por elas.
O fim do café no caneco indica que é hora de trabalhar e minhas viagens recomeçam agora. Apanho a bolsa e vou enchendo com sonhos. Acho a expressão ridícula, porque muita gente gosta da metáfora “levar sonhos na mala”. Pra mim isso é uma imagem poética pobre e batida. Mas é meu emprego e nem sempre podemos trabalhar só com o que a gente gosta. Osmar se aproxima para observar meu movimento. Aproveito e peço a ele que escolha alguma música. Enquanto isso percebo que há no canto do quarto um canteiro novo.
Um grande vaso cheio de terra e mudinhas. Me aproximo e percebo que são todas pequenas plantas de um tom avermelhado que se chocam com a sobriedade de todas as minhas outras coisas.
De onde será que veio isso? é o que me pergunto, mas nenhuma resposta brilhante ocorre. Mas me parecem boas e delicadas as mudinhas. Há também um bilhete, mas sempre sei que bilhetes são tudo, menos esclarecedores. São alguns versos de um poema de Drummond:

“Fulana diz mistérios
diz marxismo, rimmel, gás.
Fulana me bombardeia,
no entanto, sequer me vê.”

“Como deixar de invadir
sua casa de mil fechos
e sua veste arrancando
mostrá-la depois ao povo

tal como é ou deve ser:
branca, intata, neutra, rara
feita de pedra translúcida,
de ausência e ruivos ornatos.”

“Esse insuportável riso
de Fulana de mil dentes
(anúncio de dentifrício)
é faca me escavando.”

“Já morto, me quererá?
Esconjuro, se é necrófila…
Fulana é vida, ama as flores,
as artérias e as debêntures.

Sei que jamais me perdoara
matar-me para servi-la.
Fulana quer homens fortes,
couraçados, invasores.

Fulana é toda dinâmica
tem um motor na barriga
suas unhas são elétricas,
seus beijos, refrigerados,

desinfetados, gravados
em máquina multilite
Fulana, como é sadia!
Os enfermos somos nós”

São apenas versos soltos e o poema é muito maior. Mesmo assim me detenho por um bom tempo na leitura, nas descrições dessa Fulana e na escolhas propositadas dos versos e por fim creio que isso também é matéria de trabalho, portanto, vai na mochila.
Destraído com o vaso e o poeta, não percebi que Osmar tinha colocado jazz no som e mastigava novamente a maçã. Maça vermelha, como as plantas, o que será que esse coelho me esconde?
Depois de me despedir abro a porta e encaro firmemente o pinheiro do quintal. Deixo a mochila no chão, aprumo o corpo e mando o pé, com toda a minha força, bem de encontro ao tronco.
Machuco o pé e saio pulando de dor. Osmar me observa com ar de alívio e reprovação. Recoloco a mochila e me vou. Mas nós dois temos a absoluta certeza de que vou voltar.

::Interlúdio triste::

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

(Os ombros suportam o mundo – Carlos Drummond de Andrade)

::cocktail party::

Tenho a necessidade de desabafar. Talvez uma necessidade ainda maior que o simples ato de assentar-me num banco e chorar ou encontrar alguém que me ouça dizer mal da vida. Preciso de um desabafo dessa própria vida ela mesma. Preciso destruir algo belo, atacar gratuitamente algo que seja real e faça parte do mundo, este mundo, porque é contra ele o desabafo. Contra a parte dele que se ocupa em insistir-se idiota. Andamos pelas ruas e o que vemos? idiotas por todos os lados. Infelizes e imbecis, todos incapazes de um mísero ato que os diferencie de vermes. Uma parte do mundo rasteja nos cantinhos e silva de agonia quando algo os ilumina as faces e não se pode diferenciar o que são as suas faces de suas próprias barrigas. Comem, os idiotas, pelo estômago e para que serve então sua boca inútil? Para nada. Não se alimentam, não sentem prazer e não conversam. As línguas estão inutilizadas para o sexo, para o tato e paladar. Vocês irão andar pelas ruas e cruzarão com eles espalhados em seus gabinetes, restaurantes, covis e espelhos, sempre traçando  mesquinhezas e girando sobre os próprios corpos, lesmas.
Eu preciso desabafar porque a cabeça lateja de sono e lateja de dor, mas o volume da incompetência e da imbecilidade do mundo é tão alto que me impede e eu sou a tentativa de um grito, mas o abafamento desse grito, porque por vezes é preciso não ofender os idiotas. Eles me cercam, eles nos procuram, estão a nos querer ganhar para a própria causa e isso é assim triste e eu sinto pena. E talvez sinta por mim mesmo, que não destruo o que é belo e pertence ao mundo e apenas espero que ele acorde cristalino outra vez.
“O mundo não vale o mundo, meu bem”