::stop coming to my house::

Pela janela, carros, ônibus, aviões e um ranger que é como o de aranhas gigantes caminhando pelas avenidas. Pela janela estou muito mais lá que aqui, no quarto. A música, que está onde estou vem como algo distante em meio ao trânsito. Um delírio longínquo, uma coisa sonâmbula, que tenta me fazer voltar para o quarto. Há sonhos que nos despertam e há coisas espalhadas na realidade que tentam nos desligar o tempo inteiro. A música que vem do fundo do quarto e compete com o trânsito da cidade anestésica é assim, um estalo que nos devolve ao sonho. Ou ao sono sem sonho, o sono sem descanso, que é como a vida mesmo.
Não me pergunto pelos motoristas, porque sei que eles não estão lá. Assim como os tripulantes dos ônibus. Os ônibus param, as portas se abrem e nada acontece. Sobem fantasmas e fantasmas descem para ocupar a rua. Eu, na janela, no alto, não participo da não vida que observo. A cidade anestésica é isso, também. É não participar. Tento deixar a música fazer efeito, nunca sentido. O cenário recortado que a janela me dá e os sons longínquos que música do quarto transmitem aumentam minha sensação de alheamento, de torpor.
Não sei se usei algo, mas é como se. Os pés, meio soltos, porque os braços sustentam quase todo o peso do corpo no peitoril, reforçam essa ideia ébria, ou dopada, ou anestesiada. A cabeça pende para o mundo, sem uma intenção real de se juntar a ele ou a qualquer outra coisa. A música, cada vez mais presente, e a garganta, cada vez mais seca, vão me trazendo de volta ao quarto, aos cheiros do quarto, ao calor do quarto.
E ele é tudo o que tenho no momento.

::à guisa de introdução::

Entrar na cidade anestésica é fugir da pergunta “como entrei na cidade anestésica”. E foge-se dessa pergunta de algumas poucas repetitivas maneiras: folheando as fotos na gaveta da cômoda, abrindo a geladeira e deixando-se hipnotizar pela luz, ouvindo o ronco dos grandes pássaros metálicos que se mistura ao barulho constante de motores. A cidade anestésica foi feita para um tipo de pergunta sem muita forma ou sentido, para um indefinido “por quê?” que ecoa por cima de tudo, por cima do cheiro de fumaça, por cima do gosto forte de cachaça. O “por quê?” é pessoal e não será respondido. Não há ninguém que responda. Somos um exército solitário. Somos milhões de criaturas apáticas que formam milhões de exércitos todos compostos por uma única pessoa.
Na impossibilidade de entrarmos em contato uns com os outros (isolados que estamos pelas paredes dos edifícios) nos contentamos em acreditar que a resposta não importa. E enquanto a mente martela “por quê?” a boca balbucia “tanto faz”. A vida é a repetição do dia de ontem, onde se anexa mais uma noite de insônia, um porre e o choro dos fracos.
E é tão estranho como não nos damos conta disso, deitados em nossas camas tristes.