::Semana do servidor público – dia final::

Não é que eu esteja começando um relato pelo último dia, porque isso ia ser mais moderno, mas arrojado literariamente e o escambau. É que dos três dias de atividades, só pude aparecer nesse mesmo.
A proposta da semana do servidor público era ajuntar dentre os funcionários da Cultura, os que produziam alguma “coisa” cultural e colocá-los pra se apresentar pros outros. Ao contrário do que costuma acontecer em várias iniciativas desse tipo (e iniciativas grandes, como a pomposa “mostra de centros culturais”), o pessoal da literatura foi chamado e -surpresa das surpresas! – foi chamado para ler! Sem a produção de um web documentário, sem o acompanhamento de um grupo de percussão, sem a necessidade de se fantasiar de menestrel da idade média. Era o neguinho mais seu texto contra a platéia. Eu era um desses neguinhos aí.
Claro que não foi só isso, mas eu precisava começar elogiando o respeito que tiveram com quem escreve. E isso, pra mim, é também o respeito que se tem com quem canta, com quem toca e com quem faz performance cênica. Valeu, Carol Craveiro!
Não vou dar detalhes do evento, porque nem saberia conduzir muitos comentários, sempre fui um participante ausente de qualquer lugar que eu frequente (perguntem aos meus amigos). Mas houve muita música, muita fofoca (funcionários públicos reunidos) e a Lagoa do Nado é linda, não importa o quanto a prefeitura tente fingir que ela não está ali.
Mas então, perdi duas virgindades literárias ao mesmo tempo: fiz a primeira leitura pública desses textinhos sem vergonha que escrevo aqui e fiz a primeira apresentação do Coletivo Filhote de Lobo.
Como Nerito estava de férias no dia, fomos só Simone e eu. Se alguém lê os três blogs vai perceber que faltou exatamente a parte mais iluminada do coletivo. Não se enganem, Nerito é um rapaz de alma soturna, mas ele é quem tem os textos que deixam as brechas necessárias para uma felicidade vindoura. Uma alma soturna, mas pura.
Então o coletivo Filhote de Lobo subiu no tablado no meio daquela comemoração bonita e espirituosa e desceu o sarrafo no povo. Tá, mentira, a gente até leu umas coisas que flertavam com erotismo e com a paixão. Mas eu abri com um desabafo magoado e raivoso e Simone leu “Gato, Coração, Parede”, o texto mais triste e incômodo da história da literatura. No meio disso, os poemas dela. A gente desceu, todo mundo parabenizou e eu até passei os endereços dos blogs pra uma pessoa. Quem trabalha com leitura no Brasil, sabe a expressividade do número 1. Outros colegas da literatura se apresentaram e o gosto dos nossos textos foram se dispersando nos ouvintes, menos em nós mesmos, assombrados para sempre por nossas próprias ideias. O pessoal da música reassumiu, chegou cerveja e o mundo continuou do jeito que estava, para um leve desapontamento meu. Publico abaixo meu desabafo, para conhecimento:

“Antes eu tinha a desculpa de ter nascido em 1982. A globalização estava engatinhando, as relações comerciais apenas começavam a se tornar mais importantes que as relações políticas e os sociólogos tinham acabado de perceber que o modelo econômico tinha finalmente sobrepujado o modelo de governo.
Todas as desigualdades sociais, educacionais e culturais já estavam dadas quando nasci. Fazia quase 500 anos desde o início do massacre e esse massacre mudou tanto, que na minha cabeça, em 1982, ele talvez nem existisse mais.
Nasci num tempo em que o governo a e sociedade governada se mobilizavam (ou fingiam se mobilizar) ao redor de questões muito delicadas, das chamadas “dívidas históricas”. Não havia pra mim muito problema em ser um homem branco e heterossexual, porque tudo que eu precisava fazer era mostrar que não era o homem branco heterossexual modelo 1500. Eu não queria massacrar, hostilizar ou excluir ninguém. O movimento agora era outro. Era fazer valer a igualdade e lutar pela implementação política dessa igualdade, sem hipocrisias.
Sem hipocrisia, mas talvez com uma cegueira que beire a imbecilidade.
Porque até então eu creditava os grandes genocídios históricos do Brasil a outros homens, a outros tempos históricos, a motivações que no fim do século XX e início do XXI já não se sustentavam. Genocídio era coisa da gestão passada. De outros homens brancos, os de antigamente. Imbecilidade minha, mais que inocência. Ninguém é inocente.
Mas o que é que acontece? Nos reunimos ao redor de questões triviais, de discussões artísticas e filosóficas menores, egoístas, mas nobres o suficiente para nos dar a sensação de alheamento politizado, de “é assim que eu faço a minha parte”. Enquanto isso o genocídio continua e vamos matar uma tribo de índios inteira.
Ou possuo contemporâneos tão idiotas a ponto de não enxergarem que o suicídio coletivo é um genocídio decidido por nós, nossos governantes e nossas estrelas de televisão?
O massacre continua e se antes eu me consolava pensando que ele tinha mudado de forma, que eu era uma boa alminha fazendo algo para diminui-lo e diminuir seus reflexos, agora ele é o velho massacre do século XVI, onde a autoridade branca avança e destrói em nome de sua sede de sangue sem propósitos.
Por isso eu sinto vergonha de ser um homem do meu tempo. Porque há (pelo menos) um genocídio na minha gestão. Um que é minha responsabilidade. Eu queria poder fazer como alguns colegas de redes sociais e acrescentar ao meu sobrenome a palavra “Guarani”. Mas no meu caso não iria funcionar, seria idiota. Tão idiota como se eu ignorasse toda a história contra qual lutamos hoje para me dizer “negro”. Não passaria de um disfarce hipócrita para aliviar minha consciência do peso dos crimes de nossos pais fundadores.
Eu não sou um índio Guarani. Sou um homem branco que assiste um genocídio de dentro de um sarau, possivelmente com uma lata de cerveja nas mãos. Tenho vergonha de estar aqui hoje.”

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