::Um dia, daqui pra frente…::

Não, não te culpo. Até porque não há culpas nesses momentos, a gente vive seguindo desejos que são sempre egoístas, a vida de um vai ser sempre um pouco calhorda aos olhos do outro. Incompreensível e cruel, cada uma das nossas escolhas. A pergunta séria, essa que me faço aqui, fumando e encarando a garrafa quase vazia de Presidente, não é a razão de você ir, isso já estava definido, respondido e esclarecido no dia em que veio. A pergunta é “por que veio?”. Esse é um mistério interessante com o qual eu possivelmente vou me ocupar durante uns meses, um ano, sei lá. Vou encontrar outras mulheres, várias bebedeiras, vou sair com o Teodoro, vou ouvir o sax de Marina e vou me perguntar “por que diabos Melissa me escolheu?”.
É bem engraçado que seja um término sem começo, ou esse vazio nulo de tristeza. Você era inteligente e esquiva o suficiente até pra isso, não deixar que eu me apaixonasse.
Há, quem sabe, as possibilidades absurdas. Você tem um câncer e antes que as terapias comecem a engolir seu corpo e sua beleza, você quis ser a deusa que dança, a dona do sexo dos homens. Uma mulher feliz antes de dar adeus aos cabelos, retirar os seios, perder o viço e mesmo assim, morrer.
Você é casada. Seu corpo não tem indício de filhos, mas você se casou cedo demais e pouco depois de um ano vocês se viram em uma crise que só poderia ser vencida através de compreensão e liberdade. Vocês viajam, cada um pra uma cidade (e eu imagino que seu marido seja um homem bonito e interessante como você), onde irão flertar com pessoas, conhecer gente, vão se divertir e trepar até se reabastecerem de saudades e vontade de estarem de novo um com o outro. Ou talvez ele seja corno. Você o engana, mas depende dele por qualquer razão.
Ou talvez, e isso é mais óbvio que o resto, você seja só uma mulher solitária, cínica, que despreza esses valores maiores, mais profundos e complexos dos relacionamentos (terá sido traída? Caiu num desses relacionamentos abusivos e resolveu nunca mais se apaixonar? Por problemas psicológicos, nunca conseguiu desenvolver afeto por nenhum companheiro?) e pula de parceiro em parceiro, desaparecendo ao menor sinal de um laço afetivo que se forma, ou de uma rotina que se desenha. Deve sentir algum tipo de prazer quando os caras começam a ligar, a falar em saudades, a prometer coisas.
No meu caso foi um acidente completo, por eu também não querer estar preso e te ter como companhia divertida, como sexo, como algo fútil e belo. Talvez você, na primeira troca de olhares, já soubesse que haveria livros mais importantes pra mim, do que você. Que na verdade, há solos de guitarra mais importantes que sua presença.
Você me escolheu pelo silêncio? Por acaso? Porque nunca tinha transado um cara que trabalha com livros? Qual a verdadeira razão?
O certo, Melissa, é que sua presença me distraiu de uma maneira deliciosa, dessa minha dor esquisita de existir. Você diluiu minha angústia durante esses dias e eu te sou muito grato por isso. Sua ausência vai me encher de perguntas tão deliciosas quanto você mesma foi. Seu fantasma, ao invés de me assombrar, me faz a mesma companhia que você…

::inícios::

Mas é claro que uma mulher assim, com esse jeito de estar no mundo, de fugir de si, de arrumar estados temporários de existir, se aproximaria de mim. Sei ouvir música em silêncio, sei contar minhas desventuras para preencher o tempo, sei passar as mãos na mão dela de um jeito leve e sensual, que a deixa, apesar de tudo, meio tímida. Essa coisa de ver a adolescente onde está a mulher, de descortinar uma fragilidade que todo mundo tem. Ela se aproximou pelo que havia em mim que não remetia à vida dela e eu optei por não perguntar e não querer participar. Isso talvez a tenha feito ficar.
Ela definia assuntos vagos, “ontem vi um filme” ou “perdi a virgindade com meu vizinho, aos 14 anos” e me contava, nua, depois do nosso sexo, a falta de jeito com que um rapaz muito mais velho, mas tão inexperiente quanto ela, tentava, bêbado, coordenar penetração, ereção e ejaculação. Ria, concluindo “foi um desastre” e se virava para me encontrar encarando seu sorriso.
Evitar Melissa era o melhor jeito de me manter perto de Melissa. Ela confia em mim, porque não precisa me dar nada, podemos fingir, criar, nos distrair com coisas frívolas ou poéticas (se é que há diferença), caminhar pela rua da Bahia desde a praça da Liberdade até o centro, onde vamos nos juntar aos meninos hipsters do Malleta e eu vou me sentir levemente incomodado pela presença do sebo, mas vou pedir uma cerveja e assistir enquanto todos dançam.
Não dançar nos aproxima, também. Poderia nos afastar, mas não. Porque ela é uma mulher de espaços e vazios. Dança pra si, ou pra ser assistida. Quer que eu a observe- e eu observo. Todas as pessoas bêbadas, formam um balé caótico, um texto beat ao vivo. Há uma ligação entre nosso funk, cru e eletrônico e o bop dos anos 50, 60, que é negado pela maioria das pessoas, mas está ali. Melissa, alta, negra, dançando num ritual frenético que ela repetirá, mais tarde, pra mim em particular. A música criada num gueto cultural, negada por nossa sociedade, consumida cinicamente por pessoas que ampliam essas distâncias. Era o mesmo com o blues e o jazz dos anos 50. Era assim com Mardou, no livro que nos aproximou.
Melissa dança entre as pessoas e se liberta. Por um momento não há sebo, não há casa velha, não há Teodoro eternamente deprimido e magoado, ou Ulisses raivoso e pervertido. E eu percebo que esse meu afastamento da minha vida, dos meus contextos, do meu passado e do meu presente problemático, isso é estar com Melissa. E é bom. Não sei se quero que ela se vá. Não sei se estou à vontade com a ideia de transformar em lembrança, a pessoa que me ajuda a esquecer as minhas. Melissa dança e enquanto dança torna menores, os meus problemas.

::Durante::

O cheiro doce de perfume, muito bom, me invade junto com uma pontada de dor na cabeça. Ressaca, sexo, um quarto na penumbra, essas imagens vão se desenhando primeiro no meu cérebro, antes que eu efetivamente abra os olhos para entender o ambiente. Melissa dorme de costas pra mim. Acompanho com meus olhos e mãos imaginárias a curva de suas costas, desde seu ombro direito, evidente, a asa da tatuagem enfeitando as costas, até os quadris pronunciados, a bunda redonda e macia, pouco musculosa e as pernas grossas, longas. Melissa é uma mulher alta, mas na horizontal, palavras como alta ou esguia, perdem um pouco do sentido. Melissa é uma mulher imensa e espetacular. Acho que de onde estou, a definição mais adequada é essa. Uma mulher tão grande que não cabe no apelido óbvio. “Mel” nunca definiria essa mulher, seus gestos, a certeza fingida que domina seus olhares, o movimento dos quadris enquanto ela esteve por cima de mim. Não, essa mulher só cabe dentro de seu nome completo. Melissa, rainha das abelhas. Voltam os olhos pelo seu corpo, ainda com as mãos imaginárias. A vontade de acariciá-la perde para o medo de que ela acorde. A vontade de vê-la acordada esbarra na dúvida: ela se vai quando acordar? A vontade de fumar me distrai.

::3 telefonemas::

_Ismael?
_Oi?
_É a Natália.
_Hum…
_O Teo tá aqui.
_Na sua casa?
_Na rua, aqui de frente.
_Não tá na sua casa?
_Ismael, caralho! Vem buscar o Teo.
_Natália, eu não posso fazer nada, o Teo não é nenhum menino. Ele é livre pra ir e vir. Aposto que está lá do outro lado da rua, sem incomodar ninguém.
_Seu filho da puta…
_Ele está bêbado?
_Claro!
_Você chamou a polícia, Natália?
_Não, Ismael, eu tô ligando pra você!
_Você não chamou a polícia porque sabe que ia ouvir exatamente o que eu falei. Se ele está só sentado, não tem nada pra ser feito.

(Ela está desesperada, chorando. Eu me sinto um crápula. Tenho que buscar o Teo. Eu estou mentindo. Vou buscar o Teo, mas não me sinto um crápula. Eu tento, mas não consigo)

_Natália, ele está aí por sua causa. Porque você fez isso com ele. Acho que você merece passar um pouco do tormento dele. Mas vou buscar ele sim. Não diz isso pra ele. Não dá papo, não tenta se comunicar, entendeu? Ele tentou conversar com você?
_Ele bateu a campanhia até ela desarmar. Mas não fez mais nada. Foi pro outro lado da rua e está lá, sentado no passeio.
_Avanços!
_Vai à merda, Ismael. Vem buscar ele logo!
_Vocês vão precisar esperar quinze minutos, pra dar meu horário de almoço. Aí eu desço. Não deixa ele conversar com você. Não chega na janela. Se ele insistir e eu não tiver chegado, chama a polícia.
_… tá.
_ Natália?
_Oi?
_Vai à merda, você.

………….

_Quem tá falando?
_Luciana?
_Ismael, aconteceu uma coisa grave.
_Tomara.
_Puta que pariu, cara. Deixa de ser escroto! Eu não ia ligar se fosse qualquer coisa.
_Eu ainda não sei porque você ligou. O que aconteceu?
_… O Ulisses. Tá no hospital.
_Que você tá fazendo com o Ulisses, Luciana?
_Foi coincidência. Eu estava na rua e encontrei com ele. Ismael, a gente foi assaltado.
_Como?
_Deram uma facada no Ulisses, Ismael. A gente tá no Belo Horizonte.
_Puta que pariu…

(ela está dando instruções. Não estou ouvindo. Estou, aliás, me esforçando pra não ouvir e torcendo pro Ulisses morrer. É o mínimo, pra me fazer passar por isso)

_…e precisa de sangue. Qual seu tipo?
_Acho que A alguma coisa. Mas eu bebi ontem.
_Foda-se. Vem logo.
_Vou descer.
_Ismael… eu tô com medo, cara.
_…calma. Esse puto não vai morrer assim não.
_Não é isso.
_É o quê?
_…
_Eu também, Lu. Mas depois a gente pensa nisso.

…………………

_Pronto!
_Oi. Aqui é a Nádia. O João tá por aí?
_Ei, Nádia. É o Ismael. O João tá dormindo. Quer deixar algum recado?
_Tá dormindo até agora?
_Olha, então… ele chegou deve ter umas duas horas, só. Mas não vai pensar mal dele, hein? Tava trabalhando. Tocou a noite inteira num bar.
_Ele tava trabalhando mesmo, Ismael?
-Tava, sim, Nádia. Pode ficar despreocupada. Eu aviso que a senhora ligou assim que ele acordar. Como tá tudo aí?
_Tudo bem. Eu tava ligando só pra saber se tava tudo bem mesmo. Se vocês não estão precisando de nada…
_Tá tudo tranquilo, sim. E com o Ulisses de molho, sem aparecer, tranquilo até demais. O João tocou num lugar bem legal ontem, era pra eu ter ido, mas tenho andado meio desanimado.
_Eu fico mais tranquila quando você vai com ele. Você está sentindo alguma coisa?

(eu penso num monte de gente, vários palavrões e em algumas crises de sentimentalismo barato. Eu quero dizer à mãe do João que tenho vontade de morrer. Quero explicar que tudo ao meu redor não vale a pena, é medíocre demais pra quantidade de sofrimento que causa. Dona Nádia, eu desisto. Eu sinto a garganta secar. Merda de vida)

_Tô não. É só porque fiz umas horas extras essa semana. Tô cansado, só isso.
_Então aproveita que é sábado e descansa, menino. Vocês tão muito rueiros! Manda um beijo pro João e outro pra você.
_Um beijo, Nádia. Até!
_Cuida dele, hein? Tchauzinho.
_Pode deixar. Beijo.

::Marina e a lua – parte 3::

“O João vai tocar?”
“Ele não disse. Só contou que ia estar perto da gente, ouvindo a Marina, quando comentei onde era a festa.”
A madrugada é um momento perfeito. Quando estamos andando assim, meio bêbados e meio perdidos na madrugada, consigo me sentir em paz. É um dos poucos momentos que o incômodo constante (com as pessoas, com a cidade, comigo mesmo) me abandona e a ideia de estar vivo não me causa desespero. Isso me parece o tipo de coisa importante pra dizer ao psicólogo. Só não digo, porque não frequento nenhum.
Descendo a Pedro Primeiro, percebo a lua cheia. Não consigo compreender o fascínio que ela causa às pessoas, o devaneio de que a lua comanda as emoções, os cabelos, essa palhaçada esotérica. Mas com certeza é uma cena bonita. A lua escandalosamente amarela, brilhando através de umas poucas nuvens e o fundo escuro. Seria um pecado compará-la a uma mulher, mas se até o Vinícius de Moraes, o grande comedor, comparou, então que se foda. Daqui, lua parece uma dançarina, cheia de véus, no palco do nosso bordel planetário, implorando uma nota de dez reais em troca do seu rebolado perfeito. Senhora lua, eu não consigo alcançar a alça da sua calcinha, fica pra próxima.
As putas de verdade me tiram do devaneio. Elas sempre têm algo bonito pra dizer pro Ulisses. E pela política da boa vizinhança, nós sempre respondemos alguma coisa gentil em troca. Às vezes isso rende uma conversa. São três mulheres, todas aparentando ser mais velhas do que são, todas tentando parecer mais novas. Aproveitamos pra perguntar pelo bar. Elas ficam um pouco confusas e gesticulam muito, até que uma delas aponta o indicador pra cima e grita “Ah, lembrei! É aquele bar esquisito.” E começa a dar instruções. Enquanto ouvimos a explicação, dá pra perceber que Ulisses foi enganado pelo João. O lugar não é exatamente perto de onde estávamos.
Ulisses agradece e oferece um doce pras tias. Duas se animam, mas a terceira recusa.
“É contra minha religião.”
A que deu as instruções balança a cabeça e diz
“Puta evangélica. Dá pra aguentar?”
Elas nos abraçam, dão três beijinhos (porque elas também vendem carinho) e descemos a rua que foi indicada.
Ulisses está calado e eu acho isso muito estranho. Não combina com ele. Só que gosto de andar e pensar, então finjo que não tem nada anormal acontecendo. Me concentro no ritmo dos nossos passos. Me concentro no eco deles, onde não há nada e no sumiço do som quando estamos perto dos poucos bares que ainda estão abertos nessa capital careta, onde até as prostitutas são religiosas. Não costumamos muito vir pros lados de cá. A Pampulha, apesar de ser cartão postal, de ter a universidade e tudo mais, é um dos lugares mais perigosos que já conheci. Talvez por isso Ulisses não converse. Talvez sinta medo e o som dos nossos passos seja uma espécie de alarme. Duas presas que entram cantando no território dos predadores.
Começo a ficar sério junto com ele. E a fazer o que faço melhor, buscar rotas de fuga e imaginar armas improvisadas. Olhos pros portões e imagino quais poderíamos pular, caso um bando de marginais ou de skinheads apareça. Procuro por estabelecimentos abertos, ou com vigias. Procuro por pedras soltas, barras de ferro, vassouras. Claro que sem demonstrar que estou procurando essas coisas. Não quero admitir que comecei a cagar de medo de uma hora pra outra.
E então, a mágica. Começamos a ouvir, no meio da madrugada, o som do saxofone. Ulisses dá um meio sorriso e apressamos um pouco o passo. A música vai ficando mais clara e é tão bonita que dá pra entender porque nenhum vizinho reclama. Devem estar todos fazendo sexo e curtindo o som. Ao virarmos a última esquina damos de cara com o bar no final do quarteirão e a lua de frente pra nós. A música acaba, o som de umas poucas palmas preenche o vazio e então o sax volta. As notas vêm mansas e a cena na minha cabeça fica tão forte que peço Ulisses pra entrar e cumprimentar o povo. Eu preciso ficar sozinho um minuto.
Me sento na calçada, observando a lua cheia, as árvores e as casas. O sax conversa manso quando a voz ataca a letra da música “I know… what the problem is. I know… you.”
E eu fico ali, enlouquecendo com Marina e a lua, deixando que dancem na minha mente, percebendo que a lua é de novo uma mulher que reina no bordel celeste, atraindo todas as atenções, louca pelo meu dinheiro e minha sanidade. Agora a trilha sonora é perfeita pra esse strip-tease. E penso comigo “agora começou”

::Marina e a lua – parte 2::

A perspectiva de um programa para depois do trabalho me fez mudar um pouco o comportamento. Sempre que podia, passava com a bandeja por outro dos ambientes, que tocava música dos anos 70 e 80 e estava ocupado pelas pessoas que, como eu mesmo, não eram mais adolescentes, mas insistiam em se comportar como se não tivessem notado isso. Nossa divisão de setores não me deixava enrolar demais, mas com todo mundo ficando muito bêbado e louco, minha ausência entre os pirralhos era menos notada. Não demorou muito pra uma das mocinhas pedir um copo de refrigerante e me perguntar se, por acaso, eu não seria amigo dos baleiros. Já sabia que ela estava falando do Ulisses e ofereci guaraná com laranja e uísque. Num instante eu já estava transitando daqui pra lá, conversando com ela e uma amiga, levando recadinhos pro Ulisses arrumando o nosso meio de campo. Seria muito bom ter companhia depois, mas coisa, infelizmente, não passou de uma troca de telefones e uns poucos beijos pelos cantos, escondido dos outros convidados e do pessoal do cerimonial, que nos pagava pra servir cerveja e não pra agarrar as convidadas.
Na prática, éramos dois garçons e nenhuma das burguesinhas ia sair de uma festa na companhia da ralé. Mesmo com a esperança da música cult que elas ostentam que gostam e provavelmente não entendem. Isso sem falar que nós não temos um carro (que elas provavelmente têm) o que nos torna menos que homens diante dessas meninas de cera.
Mas realmente uma pena, eram gostosinhas…
À meia noite todos se reuniram para as homenagens à aniversariante. Valsa, discurso e um vídeo idiota com cenas da infância e pré-adolescência. A menina chora, os pais estão emocionados e alguns dos convidados estão passando pra fase do “desmaiar todo vomitado no banheiro”.
Os caras começam a querer passar dos limites com as baleiras. Conversam perto demais, colocando a mão nas cinturinhas finas delas. Um tio mais exaltado dá numa baleira um beliscão na bunda. A menina arma um escândalo.
Era a nossa deixa.
Tomando as dores da amada colega de trabalho (cujo nome nem sabemos), Ulisses passa a mão numa garrafa e parte pra cima do tio. Dou uma bandejada nas fuças de um sujeito que tinha a intenção de separar. Os seguranças hesitam um pouco, já que a equipe de garçons começa a se mobilizar a nosso favor. A maioria deles queria ter tacado a mão na bunda da baleira, mas estão prontos pra matar o pervertido que fez o que um ou outro deve ter feito na cozinha ou no corredor, se não com ela, com outra.
Passado o primeiro susto, todos os seguranças da festa começam a distribuir safanões entre os convidados e a equipe. A mãe da aniversariante precisa intervir e o pessoal do buffet tira todo mundo de circulação.
A situação é insustentável. Somos ameaçados de processo e cadeia pelo gerente, enquanto os seguranças lambem os próprios bíceps, em jubilosa adoração. Os garçons começam a reclamar do desrespeito com a equipe. A menina diz que vai denunciar o tio. Alguém diz que vai denunciar os seguranças, mas ninguém consegue identificar o amedrontado dono da voz.
Os donos da festa chamam o gerente pra conversar. Não sei o que eles conversam, mas provavelmente não querem saber de polícia, nem de justiça. As fotos tem que estar lindas na coluna social do Estado de Minas (que eles chamam, estranhamente, de caderno de cultura).
O gerente volta, com a maior cara de cu que pode fazer e diz que vai pagar a noite pra todo mundo e que tirando o pessoal da limpeza, o resto está dispensado.
Às duas da manhã, Ulisses e eu somos livres pra procurar pelo bar onde Marina deve estar tocando maravilhosamente seu sax. Assistimos enquanto os convidados se despediam e pegavam seus carros, com expressões de horror e medo. Aqui fora os ricos eram as vítimas. Os flanelinhas sabiam disso melhor que a gente. E enquanto andávamos eu só conseguia pensar em como deveria ser macia e perfeita a bunda daquela baleira gostosa.

::Marina e a lua – parte 1::

Chega um momento em que ao virar a cabeça para mudar o olhar de direção, as coisas se tornam um borrão terrível e o centro de equilíbrio some e é como se o corpo, desobediente, tentasse todo ele acompanhar seu pescoço e pousar no mesmo lugar em que os olhos. Isso costuma acontecer comigo quando a garrafa de conhaque está pra cá da metade. Entro numa zona onde tudo é confuso, perigoso e muito mais interessante.
Se eu não estivesse sentado, talvez caísse, mas, apelo contrário, deixo o borrão ir tomando novamente a forma da realidade e aqui a realidade é uma generosa fatia dos peitos da Nicole, que saltam pelo decote e se exibem macios e brancos para todos os passantes (não que haja passantes, mas se houvessem, eles olhariam com certeza). Apesar do olhar fixo nela, no batom muito vermelho, nas coxas apertadas no shortinho, minha atenção está na voz de Marina, que conclui, muito bebedamente, um assunto da maior importância pra nós:
“…e isso faz meu medo de ver a lua cair.”
Se Marina tem medo de que a lua caia, eu compartilho esse medo. É preciso temer uma queda lunar como a imagem poética e misteriosa que ela cria. Ela é muito isso, uma menina que cria imagens poéticas com uma naturalidade que faria Rimbaud cortar os pulsos. Quando bebo fico profundamente ressentido de não segui-la por toda a parte, anotando o que ela diz. Deve dizer coisas maravilhosas enquanto trepa.
E Marina conclui seu medo observando uma lua dúbia, quase escondida por nuvens muito escuras. Já são quase quatro da manhã e estamos numa dessas praças perdidas no meio da Pampulha, esperando que um pai ou namorado (pobre namorado) da Marina, que apareça para levá-la. Então eu vou tentar me levantar, vou levantar Nicole, a mulherzinha deliciosa que eu nunca vou comer, e vamos nos arrastar até algum lugar onde possamos esperar um ônibus pra casa velha.
Hoje eu fui um garçom. Um sujeito simpatizou comigo no sebo, me achou muito formal, muito educado e perguntou se eu não tinha interesse em fazer uns bicos pro cerimonial dele. Quem tem dinheiro quer muito ganhar dinheiro. Quem não tem, também.
O negócio era um aniversário de quinze anos, num salão de festas enorme, dividido em uns três ambientes. Como eu era novato, fiquei encarregado do refrigerantes para o ambiente dos jovens. Na teoria, só os convidados maiores de 18 anos poderiam ingerir bebida alcoólica. E mesmo assim, no outro ambiente, o dos velhos. Isso talvez permitisse aos adultos alcoólatras e responsáveis dar conselhos aos pobres bebuns em início de carreira. Ou talvez fosse uma estratégia pra medir as boas e más companhias da filha debutante.
Levei Ulisses, que foi contratado como baleiro. Os baleiros eram formados por um time de rapazes bombados e gostosas de bunda grande, que andavam com bandejas de acrílico alaranjado, levando balas, pulseirinhas, e todo o tipo de parafernália brilhante pra distribuir pros convidados. Ulisses aproveitou a oportunidade para pegar uns doces com o Chico Pereira e vender por lá.
“Tem bala?”
“Tem essa, que é de graça e tenho da de trinta reais.”
“Me dá a de trinta.”
Foi assim enquanto durou o estoque.
Meu trabalho com os refrigerantes era uma espécie de castigo ou trote dos caras velhos do buffet. Eu era o garçom mais mal visto, já que esse negócio de refrigerante sem gás na jarra de vidro só presta na cabeça do dono do cerimonial e dos evangélicos mais xiitas. Todo mundo reclama. Todo mundo reclama e todo mundo aceita o diabo do refrigerante, então eu era um dos caras que mais trabalhava. E as merdas das jarras eram pesadas, mesmo sem o refri, e meus braços vão doer pelo resto do mês.
E se o Ulisses era o traficante oficial da festa, eu me tornei o extra-oficial. Traficava o êxtase do Ulisses e traficava cerveja pros malucos de 15 e 16 anos. O combinado pra cerveja é muito simples: o cara precisa ser simpático, puxar meu saco e nunca dizer que fui eu quem levou a cerveja, mesmo que todo mundo saiba (todo mundo do buffet, pelo menos).
“Você não lembra a cara do garçom e não sabe meu nome.”
“Falou Ismael, fica de boa.”
“Você não sabe meu nome, filho da puta!”
E nessa de servir cerveja, uísque e drogas prum bando de adolescentes ricos, no meio de música eletrônica e luz estroboscópica, a festa foi ficando interessante. Mas mais interessante foi quando Ulisses me chamou e disse (gritou): “Sabe quem está tocando hoje, num bar aqui perto? A Marina, aquela amiga do João!”. Minha certeza de que estava pra viver uma dessas noites que rendem histórias acabava de se concretizar.
“Então assim que a gente conseguir largar aqui, vamos pra esse boteco, falou?”
Ulisses concordou e embolsou mais trinta Reais…