::I know you are, but what am I?::

Entro em casa sentindo o corpo pesado e sujo. Carrego nos ombros os clientes, pessoas nos ônibus, os pedintes, todo o barulho da rua, meu próprio suor, o peso da jaqueta e da mochila velha.
Mesmo tão preso em mim, noto algo errado na casa, os barulhos estão mal distribuídos e diferentes. Melhor ignorar, por enquanto. Jogo a mochila e a jaqueta no chão da sala, vou pra cozinha, onde não acho ninguém.
Abro a porta da geladeira e fico olhando pras prateleiras quase vazias. Pego a manteiga e antes de fechar a porta, continuo encarando o interior da geladeira, esperando, como se uma refeição maravilhosa fosse se materializar do nada e eu pudesse trocar a manteiga por ela.
Sigo ignorando as pequenas manifestações de vida na casa. Não consigo lidar com o que sei, ou acho que sei, que está acontecendo. Mastigo pão com manteiga contrariado pela garrafa de conhaque vazia na mesa, de frente pra mim. Sei que debaixo da pia alguém esqueceu uma garrafa de cachaça. Termino o pão e começo a procurar. Vila Velha, uma das maiores atrocidades que o capitalismo fez contra os trabalhadores.
Sirvo um copo, seguro o fôlego e bebo. Bebo de duas vezes, porque tenho pena de mim mesmo. Se eu tentasse virar tudo de uma vez, corria o risco de vomitar na mesa. Prolongar o sofrimento por mais que duas goladas seria masoquismo.
Encontro João no quarto, sentado na cama, abraçado aos joelhos. Olha pro nada e chora baixinho. O violão dele está na minha cama.
Pego o violão e coloco com muito cuidado no suporte no chão.
Os olhos do João me acompanham, mas ele não se mexe nem para de chorar.
Eu não sei porque o João chora. Mas imagino que as pessoas que prefiram o silêncio, que prefiram a música, tenham muitos motivos pra chorar.
Eu podia sentar e chorar com ele, mas não estou no clima. Ou melhor, estou sempre no clima pra chorar, mas falta força. Aquele ânimo necessário pra buscar todo o lodo dentro de si e colocar pra fora, como um vômito efêmero.
Chorar dá trabalho. Eu continuo seco e sério, deixando João chorar por nós dois até cansar.
Quando ele para, se levanta e coloca a mão no meu ombro. Os olhos estão vermelhos e inchados, mas serenos. Eu não vejo o meu rosto, não sei se disfarço a tristeza, ou se pareço mais arrasado que ele.
João alonga os braços, estrala os dedos, pega o violão e sai, limpando o nariz na manga da camisa. Eu resolvo que preciso tomar um banho.

*O título desse texto é o título de uma canção da Mogwai

::Like Herod::

A literatura é sempre um flashback de alguma coisa.
A gente pode escrever pra não chorar. Ou ainda, escrever exatamente porque chora (chorou/chorará) escondido. Me pergunto: é possível chorar de novo, depois de escrever?
Começa o flashback: Meus pais são bancários em bancos diferentes. Os bancos vendem produtos e muitas vezes sugerem esses produtos de acordo com o modelo de negócios do cliente. Todos os produtos bancários são uma coisa só, assim como bancos diferentes são sempre o mesmo banco. Todo produto é uma mentira porcamente elaborada pra vender o único produto que um banco é capaz de vender, uma dívida.
Departamentos de marketing todos voltados para convencer as pessoas de que “se você fizer uma dívida com nosso banco, será feliz!”. Só é possível ser próspero se endividando. Para ter dinheiro é muito importante dever dinheiro.
Conhecendo bancos e seus produtos fui até um deles e disse que era um jovem empreendedor. Por mais que eles sejam tarados com esse tipo de palavra (empreendedor, estratégico, valor agregado, sustentável), isso só não serve.
Por isso, antes, tive o trabalho de falsificar umas assinaturas do meu pai, tirar uns xerox de vários documentos e ajuntar com o dinheiro do meu salário de office boy para fabricar meu perfil de jovem empreendedor.
Escrevi um projeto, também. Muito bonito, aliás, uma mentira muito bonita, já que todo projeto que se apresenta a um banco é uma promessa de matança (está na história do mundo, não só nos bancos. Religiões, avanços científicos, grandes discursos, Os Sofrimentos do Jovem Werther… Sempre que alguém fez algo que deu muito certo, morreu gente pra caralho).
Você pede um dinheiro que deveria ser usado para comprar leite, roupas, construir casa, adquirir remédios e usa (ou diz que vai usar) para comprar um mostruário de piercings, alargadores e outros adornos corporais. Explica que as pessoas têm se interessado mais e mais por esse tipo de produto, que pode trabalhar de casa e visitar os clientes, que não pretende fazer os furos nas pessoas, só vender as jóias. E que pra esse sonho dar certo, precisa de dinheiro, uma máquina de fax, anúncio na lista telefônica, cartões, placa de PVC com aplicação de vinil em 2 cores.
Você apresenta uma falsa lista de possíveis clientes já sondados. Explica que o negócio é viável e que a dívida com certeza se transformará num negócio lucrativo e que aquela será a primeira de muitas dívidas e eu serei feliz e os gerentes serão felizes e o departamento de marketing continuará a vender sonhos e nos fazer de otários. E funciona.
Todas as vezes em que escrevi “você” queria dizer “eu”, então, aos 17 anos, consegui uma linha de crédito direcionada a jovens ambiciosos em busca de oportunidades.
Quando o dinheiro caiu, comprei uma garrafa de conhaque e fui atrás do João. Fomos pra praça da Assembleia, beber e conversar. Mostrei a ele os contratos e expliquei a história toda. Por fim, expliquei que só faltava o fornecedor.
“Você conversou com a sua mãe? Ela concordou em me ajudar?”. Ele fez que sim com a cabeça.
Não senti nenhum alívio. O conhaque aumentava o peso da culpa que eu carregava ali e eu tinha certeza que a Luciana carregava o dobro daquele peso. Eu sabia que precisa falar com a mãe do João. Eu tinha que dar um jeito.
Depois de matar aula e trabalhar de ressaca, fui até o condomínio do João, pra falar com a mãe dele. Ela me recebeu com um abraço apertado, sem sorrisos e nos sentamos como cúmplices. Ela apertou minhas mãos com força, me encarou muito séria e perguntou “vocês têm certeza?”.
Não. Eu não tinha certeza de nada. E Luciana, dizendo que tinha, provavelmente só tinha medo. Pânico. Pavor. Descontrole. Quem tem certezas aos 17?
“Sim, temos sim”.
“Você está com o dinheiro aí com você?”
Fui pego de surpresa com a pergunta. A coisa era muito mais rápida que o que eu imaginava. Pedi desculpas, falei que não sabia que já tinha que ter sacado.
“ok”, ela disse “A gente passa na agência e depois vai até minha amiga”.
Fiquei perdido no tempo. Tudo começou a se mover muito devagar. E a girar. Parei de raciocinar comecei a ser arrastado pela mãe de João, tentando de tudo pra não demonstrar que estava em pânico. Tenho certeza que ela percebeu, mas tenho certeza que, naquele momento, ela não se importava comigo.
Desci na agência, fui até o caixa e conferi. O dinheiro do crédito estava na minha conta recém aberta com uma autorização falsificada do meu pai. Tentei sacar tudo, mas o caixa eletrônico não deixou. Precisei enfrentar a fila e mostrar o contrato para o caixa. Ele notou que eu suava, apesar do ar condicionado na agência.
“Você não está bem, menino. Vai pra casa. Deixa pra comprar suas coisas depois.”
Acho que não respondi. Sei que voltei pro carro. A mãe do João me esperava fumando, em pé do lado de fora. Talvez ela estivesse nervosa, mas eu não sei dizer. Tudo pra mim era eu, naquele momento.
Ela ligou o carro e fizemos uma viagem infinita até Santa Luzia. Fomos até um hospital. Uma construção grande e triste, com todas aquelas janelas escondendo gente doente. Pessoas morrendo mais que nascendo. Parentes andando em silêncio pelos corredores. Fantasmas tentando entender o que tinha acabado de acontecer a eles mesmos.
Quando ela parou o carro, eu me sentia velho, cansado, com muito medo. Estava dominado pela sensação de que fazer algo ilegal era fazer algo muito errado.
“Me dá o dinheiro e me espera aqui no carro. Eu volto num instante.”
Acho que foi rápido. Enquanto ela estava no hospital, fiquei me perguntando se ela já tinha feito isso outras vezes. Se estava ali de novo. Se eu teria que voltar ali em algum outro momento da minha vida.
A mãe do João voltou, me entregou um saquinho de papel pardo com uma cartela de comprimidos. Voltamos no mesmo silêncio em que fomos.
Antes de ir embora, agradeci. Ela me pediu cuidado, falou pra pensarmos muito e se colocou disposta a ajudar no que fosse preciso.
Meu projeto empreendedor e ambicioso estava quase no fim. Faltava ligar pra única cliente da lista que era verdadeira.
“Oi”, eu disse. Ela respondeu “Oi”. Suspirei. Ela suspirou. Ficamos em silêncio.
“Eu dei um jeito, Luciana. A gente precisa se encontrar”
Mais silêncio. Mas as respirações estavam bem fortes.
“É o Cytotec?”
“É o Cytotec.”
“Amanhã, depois da aula. Não mata a aula. A gente conversa depois.”
Dizem que um feto não é um ser vivo antes de 3 meses de gravidez. Que o aborto não é o mesmo que um assassinato, quando ocorre nessa fase.
Os que pensam o contrário, normalmente acusam as mulheres de serem insensíveis, de não saberem cuidar delas e dos outros. Transformam pessoas desorientadas, tristes, normalmente jovens e imaturas em criminosas sádicas. Não sei como Luciana atravessou aquela noite. Não faço ideia de como ela atravessou todas as noites depois daquela. Mas naquela madrugada, acordado, eu me sentia um soldado de Herodes, decapitando criancinhas. Me senti assim, por muito tempo. Talvez eu ainda me culpe, mesmo sabendo que, naquele momento, aquela era a única coisa que conseguiríamos fazer sem destruir as nossas vidas e as de todos ao nosso redor. Mas eu só ia me dar conta disso alguns anos depois, quando acabei reencontrando Luciana.
Acaba o flashback.

Eu tenho essa ideia do suicídio na cabeça e ela começa com dois adolescentes abraçados e chorando.
Ela começa um pouco antes, na verdade. E o antes tem outros sucessivos antes, até podermos culpar os tataravós por essa cena que começaria com dois adolescentes abraçados e chorando.
Mas vou iniciar dizendo que eles tinham brigado e já não se falavam há algum tempo, apesar de estudarem na mesma escola.
Nesses dias era impossível que não se vissem e que as pessoas do colégio não tivessem um como referência do outro.
“Onde está ela?”, perguntavam pra ele, “E ele, vai atrasar?”, ela ouvia e davam algumas respostas evasivas e se evitavam, mas quando se viam, seguiam-se com olhos silenciosos e cheios de rancor.
Então ela realmente some. Dois, três dias. E isso é uma acontecimento incomum e todos notam.
De repente ela volta e o procura antes do início das aulas e diz “Me espera, que eu preciso conversar com você no final da aula” e sai.
No final da aula eles se sentam no chão de ardósia do fim do corredor, entre duas salas vazias. Os dois estão sérios, mas ele acha que é tudo por causa da briga e por isso não tem intenção de ceder, não vai dar o braço a torcer dessa vez, porque se sente muito magoado e essa não é a primeira briga, nem a segunda, nem a terceira… Ela:
“Eu vou te falar uma coisa muito importante. Não quero brigar, não quero explicar nada. Quero só que você me ouça”.
Eles se olham. Ela toma fôlego. Estão os dois ansiosos, ele porque ela não fala, ela porque tem que falar.
“Eu tô grávida.”
Eles sente as pernas afrouxarem e perderem as forças. Sente algo sendo injetado em seu corpo e se apoia na parede atrás dele. Provavelmente é adrenalina, ou a queda da pressão deixa essa sensação. A ardósia onde estão sentados é fria, a parede é fria, a notícia é gelada.
“Como?”
A pergunta é idiota, chega a ser engraçada de tão idiota. Nenhum deles ri.
“Quando?”
Ele vai tentar de novo, até acertar. Ela faz uma negativa com a cabeça e baixa os olhos.
Várias coisas acontecem numa velocidade alucinada, nas cabeças de um e de outro. Uma chuva de memórias cai com restos de lembranças e cheiros e o sexo perigoso e tímido dos adolescentes, o carinho e o rancor de quem se ama e se afastou, tudo tão rápido que se pudéssemos ver, seria como a estática na TV sem sintonia.
Os dois pensam uma mesma coisa e essa coisa os aflige e se torna uma terceira pessoa sentada entre eles. Invisível, mas presente.
Querem ignorá-la, mas é uma ideia pesada demais e ele é quem tem a coragem e a infelicidade de torná-la visível:
“Você nem sabe se é meu. Sabe?”
Ela começa a chorar como resposta.
Num primeiro momento eles continuam assim, a imagem mais completa da tristeza. Ela está abaixada, os cabelos lisos e oleosos sobre o rosto, as lágrimas descendo e a boca contraída. Ele, com as pernas cruzadas, os cotovelos nos joelhos e as mãos segurando a cabeça, o olhar perdido e desesperado.
Depois se abraçam. Eles se abraçam buscando conforto, um conforto que não existe, que nunca mais virá. Os dois desejam morrer, enquanto choram abraçados.
“Eu não posso ter esse filho”
Ela tem no rosto um olhar adulto e obstinado, que é muito engraçado no seu rosto de menina de 16 anos. De novo, ninguém ri. Apenas se encaram diante da afirmação. Ele suspira e ela seca o rosto com a camisa do uniforme escolar.
O gesto de subir a camisa até o rosto deixa sua barriga de fora. Ele olha e se sente mal. Está se sentindo mal porque está com um tesão terrível e inadequado. Suspira outra vez, pra afastar esses pensamentos.
“Você não quer ter?”
É a terceira pergunta errada. Não conseguiu acertar nada, não conseguiu criar um diálogo. A pergunta, como as outras, vai ficar sem a resposta certa. . Por muito tempo, a ausência dessa resposta direta e sincera irá assombrá-lo e conduzi-lo, mesmo que ele não saiba.
“Eu não posso ter esse filho”, ela repete.
Com os olhos arregalados e sem mirar nada em específico, ele assente. Os dois continuam ali, entre suspiros e silêncios. Estão sentados esperando por algo que não vem, algo que pudesse tirá-los desse lugar, desse humor, dessa realidade.
“Então?”, ele.
“Então?”, ela.
“Vou dar um jeito.”
Ele se põe de pé e estende a mão pra ela. Ela se levanta sozinha, deixando a mão dele no vazio. A sensação da mão no vazio não vai sumir nunca.
Eu tenho essa ideia do suicídio e ela começa com dois adolescentes abraçados, chorando, mas só termina vários anos depois. O aborto foi feito e também a separação definitiva. Ambos seguiram rumos muito diferentes e de quando em quando um pensa no outro, com um sentimento que não é dor, mas que está longe da ternura ou da saudade. É semelhante a passar os dedos sobre uma cicatriz. A essas se juntam outras com feridas mais ou menos próximas ou de profundidade semelhante. Eventualmente, porque isso acontece com todo mundo, um deles vai pensar “será que ele, será que ela ainda se lembra?”
Pra um deles, esse será o último pensamento.

::Um dia, daqui pra frente…::

Não, não te culpo. Até porque não há culpas nesses momentos, a gente vive seguindo desejos que são sempre egoístas, a vida de um vai ser sempre um pouco calhorda aos olhos do outro. Incompreensível e cruel, cada uma das nossas escolhas. A pergunta séria, essa que me faço aqui, fumando e encarando a garrafa quase vazia de Presidente, não é a razão de você ir, isso já estava definido, respondido e esclarecido no dia em que veio. A pergunta é “por que veio?”. Esse é um mistério interessante com o qual eu possivelmente vou me ocupar durante uns meses, um ano, sei lá. Vou encontrar outras mulheres, várias bebedeiras, vou sair com o Teodoro, vou ouvir o sax de Marina e vou me perguntar “por que diabos Melissa me escolheu?”.
É bem engraçado que seja um término sem começo, ou esse vazio nulo de tristeza. Você era inteligente e esquiva o suficiente até pra isso, não deixar que eu me apaixonasse.
Há, quem sabe, as possibilidades absurdas. Você tem um câncer e antes que as terapias comecem a engolir seu corpo e sua beleza, você quis ser a deusa que dança, a dona do sexo dos homens. Uma mulher feliz antes de dar adeus aos cabelos, retirar os seios, perder o viço e mesmo assim, morrer.
Você é casada. Seu corpo não tem indício de filhos, mas você se casou cedo demais e pouco depois de um ano vocês se viram em uma crise que só poderia ser vencida através de compreensão e liberdade. Vocês viajam, cada um pra uma cidade (e eu imagino que seu marido seja um homem bonito e interessante como você), onde irão flertar com pessoas, conhecer gente, vão se divertir e trepar até se reabastecerem de saudades e vontade de estarem de novo um com o outro. Ou talvez ele seja corno. Você o engana, mas depende dele por qualquer razão.
Ou talvez, e isso é mais óbvio que o resto, você seja só uma mulher solitária, cínica, que despreza esses valores maiores, mais profundos e complexos dos relacionamentos (terá sido traída? Caiu num desses relacionamentos abusivos e resolveu nunca mais se apaixonar? Por problemas psicológicos, nunca conseguiu desenvolver afeto por nenhum companheiro?) e pula de parceiro em parceiro, desaparecendo ao menor sinal de um laço afetivo que se forma, ou de uma rotina que se desenha. Deve sentir algum tipo de prazer quando os caras começam a ligar, a falar em saudades, a prometer coisas.
No meu caso foi um acidente completo, por eu também não querer estar preso e te ter como companhia divertida, como sexo, como algo fútil e belo. Talvez você, na primeira troca de olhares, já soubesse que haveria livros mais importantes pra mim, do que você. Que na verdade, há solos de guitarra mais importantes que sua presença.
Você me escolheu pelo silêncio? Por acaso? Porque nunca tinha transado um cara que trabalha com livros? Qual a verdadeira razão?
O certo, Melissa, é que sua presença me distraiu de uma maneira deliciosa, dessa minha dor esquisita de existir. Você diluiu minha angústia durante esses dias e eu te sou muito grato por isso. Sua ausência vai me encher de perguntas tão deliciosas quanto você mesma foi. Seu fantasma, ao invés de me assombrar, me faz a mesma companhia que você…

::inícios::

Mas é claro que uma mulher assim, com esse jeito de estar no mundo, de fugir de si, de arrumar estados temporários de existir, se aproximaria de mim. Sei ouvir música em silêncio, sei contar minhas desventuras para preencher o tempo, sei passar as mãos na mão dela de um jeito leve e sensual, que a deixa, apesar de tudo, meio tímida. Essa coisa de ver a adolescente onde está a mulher, de descortinar uma fragilidade que todo mundo tem. Ela se aproximou pelo que havia em mim que não remetia à vida dela e eu optei por não perguntar e não querer participar. Isso talvez a tenha feito ficar.
Ela definia assuntos vagos, “ontem vi um filme” ou “perdi a virgindade com meu vizinho, aos 14 anos” e me contava, nua, depois do nosso sexo, a falta de jeito com que um rapaz muito mais velho, mas tão inexperiente quanto ela, tentava, bêbado, coordenar penetração, ereção e ejaculação. Ria, concluindo “foi um desastre” e se virava para me encontrar encarando seu sorriso.
Evitar Melissa era o melhor jeito de me manter perto de Melissa. Ela confia em mim, porque não precisa me dar nada, podemos fingir, criar, nos distrair com coisas frívolas ou poéticas (se é que há diferença), caminhar pela rua da Bahia desde a praça da Liberdade até o centro, onde vamos nos juntar aos meninos hipsters do Malleta e eu vou me sentir levemente incomodado pela presença do sebo, mas vou pedir uma cerveja e assistir enquanto todos dançam.
Não dançar nos aproxima, também. Poderia nos afastar, mas não. Porque ela é uma mulher de espaços e vazios. Dança pra si, ou pra ser assistida. Quer que eu a observe- e eu observo. Todas as pessoas bêbadas, formam um balé caótico, um texto beat ao vivo. Há uma ligação entre nosso funk, cru e eletrônico e o bop dos anos 50, 60, que é negado pela maioria das pessoas, mas está ali. Melissa, alta, negra, dançando num ritual frenético que ela repetirá, mais tarde, pra mim em particular. A música criada num gueto cultural, negada por nossa sociedade, consumida cinicamente por pessoas que ampliam essas distâncias. Era o mesmo com o blues e o jazz dos anos 50. Era assim com Mardou, no livro que nos aproximou.
Melissa dança entre as pessoas e se liberta. Por um momento não há sebo, não há casa velha, não há Teodoro eternamente deprimido e magoado, ou Ulisses raivoso e pervertido. E eu percebo que esse meu afastamento da minha vida, dos meus contextos, do meu passado e do meu presente problemático, isso é estar com Melissa. E é bom. Não sei se quero que ela se vá. Não sei se estou à vontade com a ideia de transformar em lembrança, a pessoa que me ajuda a esquecer as minhas. Melissa dança e enquanto dança torna menores, os meus problemas.

::Durante::

O cheiro doce de perfume, muito bom, me invade junto com uma pontada de dor na cabeça. Ressaca, sexo, um quarto na penumbra, essas imagens vão se desenhando primeiro no meu cérebro, antes que eu efetivamente abra os olhos para entender o ambiente. Melissa dorme de costas pra mim. Acompanho com meus olhos e mãos imaginárias a curva de suas costas, desde seu ombro direito, evidente, a asa da tatuagem enfeitando as costas, até os quadris pronunciados, a bunda redonda e macia, pouco musculosa e as pernas grossas, longas. Melissa é uma mulher alta, mas na horizontal, palavras como alta ou esguia, perdem um pouco do sentido. Melissa é uma mulher imensa e espetacular. Acho que de onde estou, a definição mais adequada é essa. Uma mulher tão grande que não cabe no apelido óbvio. “Mel” nunca definiria essa mulher, seus gestos, a certeza fingida que domina seus olhares, o movimento dos quadris enquanto ela esteve por cima de mim. Não, essa mulher só cabe dentro de seu nome completo. Melissa, rainha das abelhas. Voltam os olhos pelo seu corpo, ainda com as mãos imaginárias. A vontade de acariciá-la perde para o medo de que ela acorde. A vontade de vê-la acordada esbarra na dúvida: ela se vai quando acordar? A vontade de fumar me distrai.

::3 telefonemas::

_Ismael?
_Oi?
_É a Natália.
_Hum…
_O Teo tá aqui.
_Na sua casa?
_Na rua, aqui de frente.
_Não tá na sua casa?
_Ismael, caralho! Vem buscar o Teo.
_Natália, eu não posso fazer nada, o Teo não é nenhum menino. Ele é livre pra ir e vir. Aposto que está lá do outro lado da rua, sem incomodar ninguém.
_Seu filho da puta…
_Ele está bêbado?
_Claro!
_Você chamou a polícia, Natália?
_Não, Ismael, eu tô ligando pra você!
_Você não chamou a polícia porque sabe que ia ouvir exatamente o que eu falei. Se ele está só sentado, não tem nada pra ser feito.

(Ela está desesperada, chorando. Eu me sinto um crápula. Tenho que buscar o Teo. Eu estou mentindo. Vou buscar o Teo, mas não me sinto um crápula. Eu tento, mas não consigo)

_Natália, ele está aí por sua causa. Porque você fez isso com ele. Acho que você merece passar um pouco do tormento dele. Mas vou buscar ele sim. Não diz isso pra ele. Não dá papo, não tenta se comunicar, entendeu? Ele tentou conversar com você?
_Ele bateu a campanhia até ela desarmar. Mas não fez mais nada. Foi pro outro lado da rua e está lá, sentado no passeio.
_Avanços!
_Vai à merda, Ismael. Vem buscar ele logo!
_Vocês vão precisar esperar quinze minutos, pra dar meu horário de almoço. Aí eu desço. Não deixa ele conversar com você. Não chega na janela. Se ele insistir e eu não tiver chegado, chama a polícia.
_… tá.
_ Natália?
_Oi?
_Vai à merda, você.

………….

_Quem tá falando?
_Luciana?
_Ismael, aconteceu uma coisa grave.
_Tomara.
_Puta que pariu, cara. Deixa de ser escroto! Eu não ia ligar se fosse qualquer coisa.
_Eu ainda não sei porque você ligou. O que aconteceu?
_… O Ulisses. Tá no hospital.
_Que você tá fazendo com o Ulisses, Luciana?
_Foi coincidência. Eu estava na rua e encontrei com ele. Ismael, a gente foi assaltado.
_Como?
_Deram uma facada no Ulisses, Ismael. A gente tá no Belo Horizonte.
_Puta que pariu…

(ela está dando instruções. Não estou ouvindo. Estou, aliás, me esforçando pra não ouvir e torcendo pro Ulisses morrer. É o mínimo, pra me fazer passar por isso)

_…e precisa de sangue. Qual seu tipo?
_Acho que A alguma coisa. Mas eu bebi ontem.
_Foda-se. Vem logo.
_Vou descer.
_Ismael… eu tô com medo, cara.
_…calma. Esse puto não vai morrer assim não.
_Não é isso.
_É o quê?
_…
_Eu também, Lu. Mas depois a gente pensa nisso.

…………………

_Pronto!
_Oi. Aqui é a Nádia. O João tá por aí?
_Ei, Nádia. É o Ismael. O João tá dormindo. Quer deixar algum recado?
_Tá dormindo até agora?
_Olha, então… ele chegou deve ter umas duas horas, só. Mas não vai pensar mal dele, hein? Tava trabalhando. Tocou a noite inteira num bar.
_Ele tava trabalhando mesmo, Ismael?
-Tava, sim, Nádia. Pode ficar despreocupada. Eu aviso que a senhora ligou assim que ele acordar. Como tá tudo aí?
_Tudo bem. Eu tava ligando só pra saber se tava tudo bem mesmo. Se vocês não estão precisando de nada…
_Tá tudo tranquilo, sim. E com o Ulisses de molho, sem aparecer, tranquilo até demais. O João tocou num lugar bem legal ontem, era pra eu ter ido, mas tenho andado meio desanimado.
_Eu fico mais tranquila quando você vai com ele. Você está sentindo alguma coisa?

(eu penso num monte de gente, vários palavrões e em algumas crises de sentimentalismo barato. Eu quero dizer à mãe do João que tenho vontade de morrer. Quero explicar que tudo ao meu redor não vale a pena, é medíocre demais pra quantidade de sofrimento que causa. Dona Nádia, eu desisto. Eu sinto a garganta secar. Merda de vida)

_Tô não. É só porque fiz umas horas extras essa semana. Tô cansado, só isso.
_Então aproveita que é sábado e descansa, menino. Vocês tão muito rueiros! Manda um beijo pro João e outro pra você.
_Um beijo, Nádia. Até!
_Cuida dele, hein? Tchauzinho.
_Pode deixar. Beijo.