::Diários de um desdentado::

Curioso notar que assim como qualquer tipo de Miojo tenha gosto de “miojo”  e nunca do que é anunciado na embalagem, as sopas instantâneas obedecem a mesma lógica. A gente compra uma porção de sopinhas coloridas e toma sempre a mesma sopa, com alguns pedacinhos de cortiça boiando (e que eu tenho que engolir sem mastigar).
Enquanto isso uma peça de meio quilo de queijo minas me encara de cima do balcão da cozinha e sorri pra mim (ou melhor, se desmancha em gargalhadas…).

::pensem num sujeito mal-humorado::

Arranquei meus quatro dentes sisos hoje. Não foi bom, doeu e continua a doer. Estou com a perfeita sensação de quem acaba de levar uma surra, rosto inchado, ar abobalhado e zonzo. E pra piorar a situação tem um tijolo de pé de moleque feito com rapadura em cima da geladeira. Estou sofrendo.
Nunca havia me sentido tão parecido com um super-herói ou uma criatura folclórica. Porque eu bebi sangue feito um vampiro, os dentes estavam travados no maxilar como se houvesse uma cobertura de adamantium nos ossos, estou com um sorriso idêntico ao do Coringa (esse último, que parece mais um zumbi que um palhaço) e nada me tira da cabeça que se eu fosse um lobisomem, desses com cara de cahorro, haveria espaço pra essa merda de dente nascer e eu não precisaria arrancar.
Ah sim, esqueci de mencionar que a secretária da dentista achou que eu fosse o Tio Patinhas na hora de me entregar a conta. O valor da cirurgia é diretamente proporcional ao quanto dói.

Agora estou aqui em casa, com os dentes extraídos guardados num potinho. Têm raízes gordas e pedaços de gengiva grudados nas beiradas, os canalhas.