::Summertime::

Quando a mocinha briga com o primeiro namorado, que é uns bons anos mais velho que ela mesma, resolve fazer o que há de sensato e que propicie o tempo necessário para cogitar as razões daquela briga e da infidelidade. Ela chora. Copiosamente. Pra isso é que ela está agora na roça, usando um vestidinho branco que deixa suas pernas magras e compridas de fora. É um dia de sol pesado e modorrento, do tipo que distorce as imagens e obriga que tudo seja feito em lentidão, com as pessoas se arrastando e olhando o chão. Enquanto tudo o que deve ser é o as coisas que simplesmente devem acontecer estão assim, acontecendo, vem vindo devagar e felino pelo chão de terra um grande negro de olhos curiosos e braços excepcionalmente largos.
Dependendo de quem a veja assim, rosto inchado, boca muito grande e vermelha, os ossos muito finos e compridos, ia achar que não é mais que uma menininha que se espichou demais e quem sabe antes da hora. Ou vai observar a pele pálida que é quase da cor do vestido, os cabelos longos e pretos como a moldura da janela e sentir de longe o cheiro gostoso de mulher que ela tem e vai pensar que nada compõe assim uma idéia tão intensa de beleza e ainda assim aparenta a tristeza.
Tendo se aproximado o suficiente para que lhe ocorressem os dois pensamentos, o negro estaciona a uma distância mínima daquela criaturinha, que se encontra num estado entre fada e ninfa (e os homens todos sabem a diferença) e a observa. Possui ele os traços angulosos e firmes de objeto entalhado em madeira e ao mesmo tempo seu olhar é curioso, móvel, denontando tudo o que um olhar masculino é capaz de denotar de ruim e de incrível na presença de uma mulher. Por tê-lo ali, tão assustadoramente próximo e enorme ao seu lado, a menina contém o choro, a respiração, os batimentos cardíacos e a vontade de qualquer coisa, imersa no mesmo pânico petrificado de um coelho que foi apanhado por uma coruja.
Tudo isso dura um período de oito ou nove segundos, tempo necessário para que o homem ajunte suas razões todas de dentro da natureza, coce os braços e comece a explicitar as razões do que ele mesmo crê de absurdo no mundo e que se traduz na presença do pequeno ser feito de puberdade chorosa e amedrontada que o encara com seus olhos lindos:
_É verão.
Ele se abaixa, engole saliva:
_É verão e você não trabalha, tem seu pão pronto na mesa antes de pensar que está com fome.
Sua vida é muito fácil. É tão fácil que chega a dar na gente uma contrariedade, uma coisa esquisita só de estar assim, perto. Se você olha o campo, o algodão está lá, branco e bonito igual a você, sendo colhido por gente que não é você. Se você olhar pro rio, ele é cheio e os peixes nadam, brilhosos e suculentos, sendo pescados pra você, a vida deles pela sua.
Tudo isso que pra mim é beleza e motivo, é só dinheiro pro seu pai. Ele tem dinheiro pra te comprar um sono e um sorriso. Ele pode. E esse seu rostinho não veio de dentro da terra, menina. Não. Esse olho é de sua mãe, essa boca é de sua mãe. E ela sabe ser linda e fazer do seu pai, o homem rico, um homem apaixonado e por isso é tão bom ser você. Você não é muito mais que uma criancinha e deve de ficar feliz com tudo que uma criancinha precisa pra ser feliz. Um dia não. Um dia em que tudo for mais sério e você souber o valor que as coisas têm, mesmo que elas ainda sejam fáceis, aí você vai saber o que é o mundo e do que ele é feito. Seu corpo vai ganhar carne e você vai ter asas nas costas tão bonita que você vai se tornar. Aí menina, aí você você vai chorar sim, com motivo e com vontade verdadeira. Mas agora, sendo só uma cria do papai e da mamãe, nada vai te fazer mal, menininha. Nada. Então o melhor é parar com isso. Calaboca. Não chora.

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