::Mr. Scarecrow::

Eu olho na direção dele e ele está lá, sendo. Desvio o olhar pro chão, penso na vida e penso numa pretensa vida pra ele, coisa de e se ele existisse. E ele está lá, ao seu modo, que me incomoda tanto. Procuro brincar com meus dedos, mas isso só me deixa mais e mais inquieto. Sei que por uma falta de opção ele me encara de volta. Sei que encarará qualquer um em seu campo de visão, que é largo, mas percorre somente a mesma maldita direção. Parado, esperando, ele é e se basta. O que mais enraivece nas existências simples é essa incapacidade de as tê-las. Eu não sei ser simples e isso torna a complexidade, a profundidade, um caminho incompleto. É elementar não se questionar. Saber é tão fácil que até mesmo os detetives sabem. Até mesmo os escritores das histórias de detetives sabem. E eu e mais quem reflita, não. Deus? Não sei. Justiça? Não sei. Amor? Não sei. Beleza? Não sei. Poesia? Não sei. É mais amplo que simplesmente acreditar ou não. Eu preciso saber, entender, esmiuçar, senão não torno meu, não usufruo. E no entanto ele continua sob as ordens e caprichos de Deus, do destino, do vento e do sol. De leve eu chuto a terra que é um ato contido de desespero para sentir a densidade e a concretute do universo nas pedrinhas e ao assistir o movimento devaneio com o momento em que ele irá se mover como eu e pensar e entender como eu, então será capaz de sofrer. E ao andar e frustrar-se, ao perceber o que é a chuva que cobre o seu rosto e se vai ele sentirá saudades. Saudades de quando não amava, saudades de quando isso era irrelevante porque era simples. E sua grande tentação é a volta, mas ela nunca ocorreria.
Mas sendo um espantalho, seu espaço é a imobilidade e apenas a chuva e o sol e a natureza de Deus poderão destruí-lo. Mesmo assim eu o vejo chorar e a lágrima de orvalho que lhe escorre e emite um pequeno brilho de jóia antes de ser sugada pelo tecido de sua pele parece-me a ação mais sensata de toda a realidade.

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