::cocktail party::

Tenho a necessidade de desabafar. Talvez uma necessidade ainda maior que o simples ato de assentar-me num banco e chorar ou encontrar alguém que me ouça dizer mal da vida. Preciso de um desabafo dessa própria vida ela mesma. Preciso destruir algo belo, atacar gratuitamente algo que seja real e faça parte do mundo, este mundo, porque é contra ele o desabafo. Contra a parte dele que se ocupa em insistir-se idiota. Andamos pelas ruas e o que vemos? idiotas por todos os lados. Infelizes e imbecis, todos incapazes de um mísero ato que os diferencie de vermes. Uma parte do mundo rasteja nos cantinhos e silva de agonia quando algo os ilumina as faces e não se pode diferenciar o que são as suas faces de suas próprias barrigas. Comem, os idiotas, pelo estômago e para que serve então sua boca inútil? Para nada. Não se alimentam, não sentem prazer e não conversam. As línguas estão inutilizadas para o sexo, para o tato e paladar. Vocês irão andar pelas ruas e cruzarão com eles espalhados em seus gabinetes, restaurantes, covis e espelhos, sempre traçando  mesquinhezas e girando sobre os próprios corpos, lesmas.
Eu preciso desabafar porque a cabeça lateja de sono e lateja de dor, mas o volume da incompetência e da imbecilidade do mundo é tão alto que me impede e eu sou a tentativa de um grito, mas o abafamento desse grito, porque por vezes é preciso não ofender os idiotas. Eles me cercam, eles nos procuram, estão a nos querer ganhar para a própria causa e isso é assim triste e eu sinto pena. E talvez sinta por mim mesmo, que não destruo o que é belo e pertence ao mundo e apenas espero que ele acorde cristalino outra vez.
“O mundo não vale o mundo, meu bem”

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