::Jeremy::

Houve um que se chamou Jeremias. Fosse hoje, poderia ter sido um bom nadador, talvez não um medalhista, mas ainda assim alguém que vivesse feliz passatempando algo em que não se sentisse medíocre. Jeremias era ruim de futebol.
Hoje, Jeremias estaria bem, porque bem desenhava e isso o tornaria um arquiteto, ou um professor de Artes, ou talvez nada disso. Mas tinha a letra feia e disforme, o Jeremias, muito feia.
Jeremias teria se casado aos trinta e cinco, tarde. Alguns de seus contemporâneos o fizeram aos vinte. Mas ele cresceria com uma estranha crença em seus próprios sentimentos e acabaria tomando uma precipitada e certeira decisão de casar-se com a quinta namorada, uma mulher muito mais nova que ele e que o fazia ser menino, sem que com isso perdesse a perspectiva de um futuro sério e o futuro é realmente um seríssimo afazer.
Veríamos então, fosse hoje, um sujeito que não ficou rico, não revolucionou as ciências ou os esportes. Alguns cruzariam com ele nas ruas, ou nos bares e o achariam vulgar, comum. Outros o considerariam um homem um tanto charmoso, com seu estar calado e cabelos castanhos muito claros, em óbvio constraste com as sobrancelhas negras. Jeremias, o cara legal, razoavelmente bom colega de trabalho e bom marido, apesar das normais discussões com a esposa.
Mas houve um chamado Jeremias que não é. O que era? Era o vazio existencial na vida de seu pai, que não sabia. Era a razão dos antidepressivos que a mãe tomava, o explícito retrato de que vivemos no escarafuncho do sofrimento e onde não falta a comida nos falta sentido. Jeremias era o desprezo dos amigos, o número da chamada e suas notas estranhamente baixas para uma criança tão compenetrada. Jeremias era o que era, apenas seu nome e um ato.
Não há Jeremias que não seja a lembrança de uma criança atordoada que entra atrasado na sala de aula e como explicação para a interrupção dos cursos das vidas que não se importavam, desferiu um tiro contra a têmpora esquerda, fazendo a professora sentir o sabor do que existe de mais material no espírito humano.
E era exatamente isso que Jeremias desafiava as pessoas a esquecerem.