::wax simulacra::

As paredes são brancas, mas estão manchadas principalmente nos cantos. As manchas são amareladas e fica a impressão de que o cheiro do lugar venha dali, das manchas, ácido, tátil e perceptível mesmo depois de muito tempo. Mas o cheiro vem do resto do hospital, dos corredores, dos frascos com álcool e drogas e das pessoas moribundas. Tudo o que eu faço é observar. Vânia e a mim. Estou amargo e um pouco surpreso, por não imaginar que ela estaria aqui, mas talvez no fundo eu soubesse. O fato é que estar ao lado dela é tão potente e a beleza de Vânia é poderosíssima em meu espírito e seu cheiro de corpo e lágrimas tão intenso que produz uma vontade de despertar. E por um momento eu imagino que meu corpo irá se mexer.
Ela está aqui por mim. É por mim e por mais ninguém que ela está aqui e isso dá um sentido a tudo, mesmo que eu saiba do tamanho de sua tristeza e de que eu provavelmente morra. A tristeza de Vânia é por mim e não me importa que eu não saiba onde se encontra Deus neste momento.
Desde o princípio, era isso. Posso assitir a tudo por todos os lados, mesmo ligado aos fios e às incômodas caixas de metal e luzes. e ver sentir que só sou capaz de fazer com que você sofra porque de alguma maneira você me ama é que dá o contorno necessário à meia realidade onde estou instalado. O amor é um sentimento desprendido, criado a partir do mais profundo da sua vontade. É química sobre química sobre química. O vício. E de onde eu penso a química é vã e o vício é o resultado mais belo, ainda que trágico, Vânia. Vânia, Vânia, Vânia. Isso que eu sei que você sente agora enquanto se desespera é o que eu sei que senti antes e por isso somos iguais. O meu passado é igual ao que você é. O amor, ainda que separado pelo cinismo do tempo e os incômodos do espaço e da realidade é o mesmo amor, o seu e o meu. Então por que é que eu quase morro e você sofre, se o amor é o mesmo. Porque há essa cortina temporal e principalmente a hipocrisia que cerca a verdadeira visão que é a capacidade de sentir e não de negar. Se você soubesse que me amaria e se desesperaria assim, talvez tivesse sempre assumido isso e eu não estaria para morrer e você não se desesperaria de amor.
Mas há a hipocrisia e ela pede isso, pede que não nos resignemos aos nossos próprios corpos no ato de descortiná-la e que sejamos radicais e repulsivos para sermos sinceros, ainda que a sinceridade nos torne incopletos.
E fica isso, Vânia. Porque eu amo a você e porque eu precisava provar que apesar de tudo e até de seu pretenso pensamento eu sabia que você também me amava. É tosco, mas amar é tosco. Eu usei arame.