::religião::

Era pra ser uma reunião do grupo de apoio na capela, mas na prática ninguém quer apoiar ninguém, todo mundo quer falar da própria tristeza. Competem pelo microfone, pela atenção do senhor padre (que percebemos não estar prestando assim muita atenção), pela satisfação macabra de contar uma história mais triste, mais sofrida, mais digna de pena. Algo que legitime e condecore a presença de uma pessoa ali. Uma senhora lamenta a morte do marido. Terrível morte, veio em má hora, deixando uma senhora cheia de dívidas. Muitas, muitas. Parece que o marido bebia quando era vivo e parece que ela só lembrou de contar isso porque as pessoas não estavam assim tão compadecidas da história. Ela estava miseravelmente triste, mas sabia que o que Deus pedia era força e ela vinha sendo forte apesar de tudo. Então o senhor padre perguntou se alguém tinha uma mensagem de conforto pra senhora Eleonora. Mensagem não tinha, mas um sujeito com o rosto completamente desfigurado apanhou o microfone e começou a história do incêndio. A expressão do rosto era sempre a mesma e dava pra perceber que ele estava chorando, mas tinha o rosto muito duro, quase que só osso e pele esticada e enegrecida (sem lágrimas). Morreu no incêndio um filho desse sujeito, o segundo filho que ele entregava à Deus. Esse no incêndio, o primeiro, na festa de formatura do curso de Direito. Deus pedia força e ainda bem, porque se pedisse beleza ia ser uma grande covardia com o homem. O padre resolveu que ninguém teria uma mensagem de conforto e decidiu que o melhor era que fossem logo almoçar pra se pegar às novenas pela tarde. Todos se levantaram ao mesmo tempo, gerando um pequeno problema para que conseguissem sair. Se todos têm de sair por que todos querem sair primeiro? Mas cada um saiu com a sensação de que a sua angústia era a maior, inclusive o padre, que não se sabe porque cargas d’água acreditava carregar todas aquelas angústias das pessoas sobre si.
E sobrou um sujeito sozinho no escuro da capela, num canto. As lágrimas lhe desciam ritmadas, sem que o corpo soluçasse, como se aquele homem estivesse vazando. Ele ficou ali com os bonequinhos de santos, que nada mais eram que a história triste dos mortos da igreja sempre nos encarando com um ar fúnebre de quem cobra que a gente se entristeça por eles. O homem se levantou e foi se assentar de frente pra imagem da santíssima trindade e interpelou o menino Jesus. E interpelo Deus. E aproveitou pra desabafar com Maria e José. Falava sobre a mãe e dizia absurdos sobre a morte. Ainda não conseguira superar a morte da mãe e acreditava que a ação de morrer era o ato mais egoísta e violento do destino sobre os seres humanos. Culpa de Deus, que quis assim. A morte não se explica, não pede por favor, não escolhe, um absurdo. Uma ignorância.
Então aparece uma figura ao seu lado e diz com calma e autoridade que é pra ele calar a boca. Era Deus. Deus tem cheiro de flor e está carregando uma caixinha de pedra sabão, cheia de desenhos estranhos, mas muito bonitos. Estende a caixinha pro homem e abre, mostrando um monte de pedrinhas pretas, pedras de isqueiro guardadas no fundo da caixinha. “Vidas” ele diz. O homem está atônito. Deus não veio dar conforto, veio dizer que ele não fique se atormentando a troco de nada, porque nada será respondido ou mudado. A morte continua, a vida continua e tudo é complexo demais pra discutir com um homem que chora a morte da mãe. Que ele se dê por satisfeito com o fato da humanidade dominar os segredos da vida, os do planeta, os dos elementos, os das leis naturais e todo o resto. Se há problemas com a morte, você ainda não os conheceu, palavra de Deus.
E Deus foi saindo, mas o homem perguntou:
“As vidas, Senhor, o senhor vai semeá-las”
Deus tinha mais o que fazer, mas respondeu que não, que se a metáfora era essa, então a caixinha era colheita, produto mesmo. Deus se foi e o homem continuou sozinho, chorando…

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::12-the flying club cup::

E eu olhei pro céu, dali do colo dela, e as nuvens passavam com uma rapidez de rodovia, fofas. A gente, nós dois parados na calçada e nenhum automóvel passava pela rua, atrapalhando nosso namoro que era perfeito. O sorriso que ela me dava era da simplicidade de uma música do Beirut e ao dizer isso assim, abertamente, ela sorriu ainda mais, com ar de verdadeiramente apaixonada e nós dois estávamos numa cena de filme argentino, onde tudo é muito erótico e colorido e o mundo está caoticamente em paz. Lá embaixo, onde a rua se encontrava com a avenida, lá embaixo é que se produzia algum barulho de pneu e buzina, mas isso até enfeitava tudo. Eu me levantei de seu colo e ofereci mais do vinho barato e doce (dulcíssimo) bebido direto do gargalo. Ela aceitou e com a boca suja desse vinho é que ela me deu um beijo, que eu queria mas nem esperava. Meu primeiro beijo tinha gosto de ferrugem e eu me despedi ali de ser menino. Agora eu a tinha, minha namorada.