::trabalho num shopping::

Olho o mundo com certo ceticismo e bastante mau humor. Porque pra sorrir preciso trancafiar cada um dos sentidos, apagar a memória e desligar completamente minha capacidade de analisar. Não há saídas sociais, filosóficas, tecnológicas ou amorosas. A fé continua salvando quem pode pagar por ela e cuspindo lixo no resto. Os ativistas continuam bebendo fumando, andando em seus carros e motos pra salvar um mundo que não tem culpa de estar sendo destruído por nós (eles inclusos). Olho o mundo com certo ceticismo porque há muito a fazer, mas nunca o suficiente. As guerras pessoais foram todas perdidas por quem luta no mesmo time que eu, inclusive por aqueles que ainda irão começar a lutar. Creio que eu tenha começado numa guerra perdida pelo meu lado. Sou cético porque tudo dentro da realidade é imensamente claro, as necessidades estão delineadas, as forças transformadoras estão muito bem estudadas e os culpados todos apontados e odiados. Nada é feito apesar disso. Olho o mundo com meus olhos míopes, céticos, cansados, porque sempre que faço essas incursões estranhas pra fora de mim, me torno ainda mais amargo e cético. Sou mau, sempre em busca do perdão por existir mau, tentando redenções que me façam menos mau, buscando irmãos que queriam lutar minha guerra contra o hedonismo e a ignorância, contra a pobreza e a violência, contra o mau que eu espalho quando escolho sabores, vícios, candidatos. Eremita, andarilho, franciscano, as verdadeiras vocações que abandono em nome da hipocrisia que me mantém simplesmente cínico.

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::Conto profético::

Publicado originalmente como “conto” em 23/01/2007.

Ela acorda de manhã e percebe que em suas costas figura um belíssimo par de asas, tal qual o maior e mais brilhante de todos os anjos. Desce encantada as escadas e é com gosto que exibe essa dádiva à família, porque sim, porque é uma dádiva aquilo que recebeu, concordaram todos. Uma tia mais afoita chegou a pedir ao senhor Deus de todas as coisas que conservasse aquele par de asas às costas da sobrinha que há tanto precisava de asas pra que passasse a desejar com mais afinco a própria felicidade.
Como não pára a vida, essa inominada protagonista toma o rumo da que julga sua, dirigindo-se ao trabalho nosso de cada dia após dia após dia. E já aí, começa a refletir se sua nova condição de ser alado e feliz era realmente uma condição especial e se era realmente um motivo ou convite à felicidade. Tomando o coletivo percebeu que seu adendo dificultava sua locomoção e seu desenvolvimento em locais pouco espaçosos como o interior desses ônibus horríveis a que recorremos na falta de quaisquer outros recursos de deslocamento de massas. As pessoas observam com todo tipo de reação as grandes extensões emplumadas da senhorita, algumas com olhar de inveja, outras com sincero desaprovamento, uma moça não deveria exibir tão vistosas asas, afronta direta à superioridade de qualquer anjo sobre reles humanos, onde já se viu?
Homens são como aquela moléstia que nos rogou o cão e não se contentam com asas que pendem num indivíduo alheio a eles mesmos. Todos queriam tocar, acariciar, machucar, conhecer daquelas asas, um verdadeiro martírio o trajeto casa trabalho com o coletivo mediador. Ao alcançar seu objetivo, com um pouco de atraso, devido aos engarrafamentos, foi atribuída àquelas asas o grande motivo pela descoordenação da prefeitura em mapear as necessidades dos patrões e dos empregados em se estar em determinado horário para que cumpram os segundos suas determinadas funções. Além de tê-la atrasado, as asas agora eram também um grande entrave ao progresso e ao trabalho, já que precisavam de acomodações especiais (não se senta em qualquer cadeira quando se possui estes voadores de invejar condor) e por especiais seu patrão entendia simplesmente dispêndio, atraso e qualquer coisa de aleijo no tratar com a subordinada que o colocava na delicada situação de quem vê cair a efetividade de seu contingente sem poder atacar as raízes de seu problema, por um dilema ético e cristão de rejeitar uma sujeita com asas, como qualquer santo. Ou anjo. Ou o diabo, que seja.
É fato que importunou o patrão a referida durante todas as suas nove horas de clausura, culpando onde podia todo e qualquer corpo que possuísse apêndices incomuns, indesejados ou não, especiais ou tacanhos, que atravancavam o navegar dos lucros para os cais de nós sabemos bem quando vemos quem reclama com tanta amargura e tristeza no olhar.
Exausta, a moça volta pra casa, pedindo cama, pedindo a cama e um algo de comer que as forças lhe faltam do tanto que trabalhou, chefe insensível, pessoas ordinárias que a cercam.
Os olhares da família a tolhem. Porque agora tinha um par de asas- bonitas asas, contudo- ela já começava a sentir-se maior ou melhor ou tudo em relação aos comuns, à sua família. Vão-se as asas, mas a família nunca te abandona, pensou a mesma tia, com um pouco de arrependimento, não se sabe se pelo pensamento ou pelo pedido feito de manhã.
Ninguém a iria entender. Nenhum deles havia nascido alado ou acordado assim numa bela manhã de sol, eram todos iguais os de dentro e os de fora, não sabiam como se sentia ela, que na verdade também não sabia. E esse foi o primeiro dia.
No que se passaram os dias, suas atribulações apenas se faziam aumentar. O pó grudava em suas penas. A água do banho as fazia cheirar mal. O sabão irritava a pele angelical ou de ave, que formava aquele adendo estranho. Não havia caminho em que não se maravilhassem ou lhe repreendessem as pessoas por verem as asas, não importando que aquilo nada tivesse a ver com elas mesmas, mas com a moça e com a moça só. Talvez com as asas, sabe-se lá se asas têm o poder de verem-se o alvo qualquer de uma situação. Melhor é pensarmos que não.
Mas enfim, toda a pressão da família, dos amigos, do trabalho, da vida, mas que coisa! acabaram por lhe convencer que, as asas nada mais eram que dois suplícios. Se Deus tinha planejado algo, era seu castigo por algum pecado muito, muito grave que havia de ter cometido numa dessas vidas que duvidamos que sejam computadas no livro do Grande, pelo menos uma mulher no trabalho duvidava. E se eram assim, tão lastimosas, o melhor era se ver livre delas logo. Mancar arrancar as vilãs. Fazer com a custa de alguma dor com que a dor sumisse dentro de um gemido seco e sentido.
A notícia preencheu a casa e as conversas da família. Não, ninguém iria consentir com o coração leve naquela decisão. As asas eram dela, conseqüência de uma vida e vereda aberta à felicidade, como ela, logo ela que as carregava podia pensar em mandar arrancá-las? Faça logo suas todas obrigações e não pense mais nessas bobagens, era uma espécie de coro ribombando pela vida de nossa anja.
Mas o pai (e o que se passa ao pai dessas moças?) que era um desvirtuado, em conversa assim meio triste, é quem acabou reencorajando a menina, porque se ela não conseguia se ver como alguém feliz com todo aquele peso inútil preso ao corpo, que mandasse arrancar-lhe fora, era apenas aquilo de peso inútil e servia como garantia apenas ao sofrimento exacerbado.
Arrancar as asas é dolorido como arrancar qualquer membro do corpo, por maiores sejam as anestesias. Na dúvida peça seus esclarecimentos aos montes de coxos, leprosos agnósticos e outros que precisaram abrir mão de prolongamentos vitais de si mesmos em função de desvio ou acidente físico. Arrancar as asas dói, elas são suas e doem ao sair em meio ao sangue. O pós operatório é complexo e a moça saiu de circulação por um tempo, até que não restassem mais que algumas cicatrizes que puxavam um pouco a pele das costas.
Já re-estabelecida, a moça voltava à velha vida, com emprego, família, amigos, enfim, a mediocridade cotidiana que nos cerca. Sem asas. Numa dessas cenas, estava ela sentada com um seu amigo, um que tomava cerveja aos borbotões e acreditava em algumas coisas que ninguém mais ousava pronunciar. Ao narrar-lhe a história estranha das asas, ele perdeu o olhar no teto e enquanto imaginava um céu perfeito falou quase que pra si: “Se elas ainda tivessem servido pra voar…”
E isto foi algo que nunca havia ocorrido à moça.

::Leo e Bia::

Sabe o amor? Aquele? Acho que é de mentira. Ou é como acreditava o Andersen, quando comparava o amor do homem ao soldadinho de chumbo, indestrutível, mesmo que só levasse bolada nas costas, enquanto o amor da mulher era como a bailarina de papelão, que no primeiro aperreio cai na fogueira e… bom, ela era de papelão. E há outras dificuldades pra entender esse amor, há as intensidades com que cada pessoa sente o que sente e o que é que cada um do nós espera do outro e da vida e de si. Mas essa metáfora do Andersen (que já aparecia na literatura de shakespeare) é sempre aplicável e “extraível” da maioria das grandes histórias do amor, principalmente no cinema (“As Pontes de Maddison”, “Closer” ou mesmo “PS: eu te amo”). O soldadinho de chumbo morre e se transforma num grande coração metálico e eterno enquanto a bailarina sublima na fogueira e ao fim não resta nada que se possa chamar de lembrança. Chato, mas está lá. E está também naquela mesa de bar, onde acabo de perceber que o casal não bebe mais com o mesmo entusiasmo e os olhares não se cruzam, apesar de se perseguirem vez por outra. A cerveja está choca e nenhum dos dois tem mais que vinte e dois anos. Talvez ele tenha vinte e três. O certo é: eles sentem como sentem quase todos nessa primeira metade dos vinte, com uma firmeza que é impossível nos adolescentes, mas como muito mais otimismo e idealização do que os adultos de verdade, os pais solteiros e divorciados, os casais com muito tempo de estrada e que atravessaram à força de muita paciência e antidepressivos crises fortes. Há uma tensão melancólica que emana deles e que eu posso quase pegar no ar e misturar à minha cerveja, com duas cores distintas, dois tons de verde únicos, que se referem aos amores “andersenianos” dos dois. A tristeza dela é uma vontade de prender um amor que ela sente e que tenta fugir de dentro de seu peito. É incontrolável, mocinha, seu amor quer deixar-te, é uma dessas plumas que ao tentarmos pegar acabamos por afastar de nós devido ao ar que nossa mão movimenta. Sua dor vem de uma certeza de que você não devia tentar prender um amor. Sua dor é a vontade de um amor que você já não sente. Sua dor é a culpa pela ausência de sentimento.
O verde que contorce o rosto magoado do rapaz me é um velho conhecido… a tristeza rancorosa da percepção de que você não vale à pena. E não vale e seria absurdo e ridículo se valesse. O amor se constrói ao redor de coisas que não valem à pena, que são efêmeras e simples. Irmão, meu desconhecido irmão, essa dor é um pedaço de chumbo derretido que você vai arrastar no peito. Dói porque é pesado e só deixará de ser quando você for forte o suficiente pra carregá-lo sem curvar o corpo. Eu não ouço o que eles falam, não sei o tempo que os prende e nem quais as memórias lindas e doloridas cada um irá arrastar pelo espaço, mas sei que às vezes é assim. Eu olho duas crianças mais velhas que eu, porque o momento as faz assim, velhas e tristes, e penso que eu acreditaria no amor se eles acreditassem no amor. Mas eu misturo todo o verde que se desprende do éter em redor da mesa à minha cachaça e com meus olhos vagos e sonolentos apenas duvido…

::Luta contra o preconceito::

Eu tenho um amigo pagodeiro. E a nossa diversão está exatamente em nos implicarmos mutamente tomando cerveja.  Gosto dele pela força das próprias convicções mesmo que eu discorde de praticamente todas elas (e talvez pelo fato de que ele talvez tenha razão). O que acontece é que depois de muito discordarmos sobre o mundo, a política, a utopia e principalmente a música, ele resolveu que queria me sacanear em meu próprio terreno. Disse que ia fazer uma poesia e que eu ia precisar colocar na internet. Não sei se ele acredita que ninguém lê meu blog, até porque não sei se ele entende perfeitamente o que é um blog. Mas estávamos bêbados e eu disse que se ele escrevesse uma poesia, que eu publicava, claro. Promessa é dívida:

O rapaz branco passa cantando
E eu tenho vontade de matá-lo
De sua língua sai o verso estrangeiro
Esfregado impiedosamente em meus ouvidos
Não falo inglês,não sou pederasta não frequento escolas

E luto por um pedaço de pão e minha cachaça

O rapaz branco canta e vive
A tecnologia e o mundo são seu amigos
Sua língua me insulta e insulta meus pais
E eu luto contra ele, com pedaço de pau
Metal e minha fome da vida

Eu o tomarei de assalto, meu amigo
E seremos todos uma notinha
escrita numa língua que eu converso
mas quase não entendo nada

O rapaz branco luta contra mim
Com todas as forças que Deus deu
A televisão, o jornal e o dinheiro

que me mostra, me cobre e me falta
eu perco mesmo quando assalto

O rapaz branco é forte como seu Deus

Chico Pereira

PS: eu revisei a grafia, mas porque ele pediu!

::Chove::

Chove e eu me pergunto o que há de tão extraordinário nas tempestades e nas crianças, para que eu consiga perder tanto tempo as encarando e querendo ser como elas. Mas sou calmo, introspectivo, casmurro. Sou o trovão grave e lento, sou o som que faz Deus ao raspar a garganta. Uma única parte da situação que eu desejo inteira. Um elemento de um todo do qual faço parte, mas faço uma parte e não faço um todo. Eu quero o todo, como uma tempestade completa e finita, perfeita por ser agora um sinal gráfico e uma lembrança misturada àquela de todas as tempestades que rondam as almas das pessoas que se preocupam com isso. Essa tempestade torna-se em todas as tempestades, perceba, por se ajuntar num canto do cérebro naquela região em que se registram as tempestades. É estranhamente um mesmo pulso elétrico numa mesma área que reage ao ser lembrada a tempestade. Mas cada tempestade pode erguer a cabeça dessa massa chuvosa e se evocar em suas particularidades mais ou menos erradas do que foi registrada de si em nossa mente. E ela pode fazer isso por ser um todo e não apenas um único elemento de um todo da qual faz parte. Eu não sou um conceito, mas uma generelidade de um conceito do qual faço parte, uma partícula, um adjunto adverbial de humanidade. E isso não faz a chuva parar.

::Névoa::

Não é que eu seja pagão. Não. Mas esse meu jeito de acreditar funciona assim. Eu acredito duvidando. Eu me forço, buscando aí umas respostas que, sabe, não vêm claras e dadas, escritas em livrinhos. Deus não apareceu pra ditar as regras. E acho que antes de querer nos testar, fazer mais uma de suas piadas irônicas onde o resultado pode ser o inferno,  a intenção dele era nos dar o benefício da dúvida. os argumentos menos maleáveis são como giz, esfarelam com muita facilidade e nos irritam as narinas. Eu procruro duvidar de mim como forma de confirmar tudo isso que está aí e que não verdade está é aqui comigo. Por isso é que eu gosto de fazer com que os outros duvidem. Nada mais bonito do ponto de vista religioso que um sujeito que vence a dúvida. Por, pelo menos, mais um dia. E todo mundo fala, todo mundo tem opinião, muita gente grita e escreve livro. Ou seja, eu sou uma pessoa absolutamente normal. Mas eu gosto de andar por aí…

::Nova resolução de ano novo::

A partir daqui eu os amo como amo os dias e as noites. Vocês todos são o lugar onde eu existo e me construo e me identifico. Eu não irei me revoltar contra vocês e serei feliz por poder amá-los e me identificar como verdadeiro irmão de cada um. Vocês, assim como todos os seres humanos, irão pensar de maneiras particulares, vão agir de forma caótica e vão em algum momento me magoar, me contrariar. Não importa. O amor que eu sinto é maior, a felicidade que qualquer um de vocês a quem eu amo é capaz de me causar é maior. Não há razões reais para que nos desentendamos e eu percebo isso.