::o tempo, o tempero::

Tentar não fazer algo que as pessoas façam,
principalmente sob a desculpa da transgressão
Recusar a revolta planificada, organizada, os sistemas que lucram gritando contra sistemas
Tentar amar
de uma maneira única e pessoal.
desprezar todos os
manuais
conselhos
ensinamentos
vivenciar de maneira livre, caótica, violenta, inconsequente e
verdadeiramente
apaixonada
o que você e só você chama de amor
tentar manter as amizades ruins
Não desprezar as pessoas que precisam de favores
que estão ali por interesse
que são obrigadas a fingir que gostam de você
admirar seus olhares e sorrisos
suas reações ensaiadas, desculpas sempre inteligentes
olhar para essas pessoas e admitir
que são somente humanas
humanas
repetir a palavra fundamental
humanas
tentar escrever no ônibus
Formar as letras com toda a dificuldade.
rabiscar cada letra como alguém que busca, no meio da grafia tremida, um lampejo de perfeição
pensar com o barulho do motor
as conversas
pregações
músicas
descontinuar o texto para salvar uma frase que leva muitos minutos pra ser escrita
salvar uma frase
salvar uma frase
salvar uma frase
construir o texto com a mesma dificuldade
com que um músico
medíocre troca os
acordes no violão
Tentar o ódio dissociado da violência
Tentar o dia dissociado da violência
reconhecer a violência como o nosso padrão
Fazer listas como quem escreve um poema ruim
escrever um poema ruim como quem escreve literatura
Tentar negar padrões
tentar negar transgressões
Tentar negar o que chamam de amor
e escrever no ônibus
como quem esculpe uma pedra
e tentar salvar uma frase
salvar uma frase
uma palavra sequer.

::madrugada::

O miado atravessa a rua, vindo de não sei onde e entra pela janela, me invadindo um sonho. Acordo, assustado, já sem lembranças do que sonhava. Estou suado e sinto a garganta seca. O miado provavelmente me salvou de alguma coisa ruim. Quero água.
Caminho no escuro até a cozinha, onde a luz da geladeira ataca meus olhos. Sinto a temperatura do copo nos dedos e o frio se irradiando por dentro do meu peito, enquanto a água desce pela garganta. O choque da água com o calor do meu corpo é bom. É um pouco de paz, penso.
Mas não pode haver paz. Nunca.
Um barulho no quarto. Fico alerta. Mais e mais fortes miados lá fora. Um gato? Teria entrado pela janela? No terceiro andar? Não é um gato. Alguém está andando pelo apartamento onde moro sozinho e cada passo dessa suposta pessoa faz com que os pelos dos meus braços e pernas se arrepiem. Mais e mais. Estou em pânico. .
Lá fora, os miados continuam. Um vulto aparece na porta da cozinha e fica ali, parado. Não consigo distinguir seu rosto. Tento me mexer, mas meu corpo parece imobilizado, feito de chumbo e tudo ao meu redor é medo. Quero dizer algo, mas minha língua parece crescer e se enrolar por dentro da minha boca. os miados não param.
A sombra dá um passo pra dentro da cozinha. Ainda não consigo focar suas feições. Sinto que meu corpo vai cair. A única coisa nítida em toda a cena são os malditos miados, que parecem tão fortes que conseguem desviar minha atenção de todo o resto para me perguntar “como eles chegaram até aqui?”.
Despenco.
Acordo. Molhado. Eu, o lençol, tudo é suor na minha cama. Dessa vez me sento e coloco a mão na testa. Não tenho febre. Tenho um pesadelo dentro de um pesadelo.
Continuo com sede, mas tendo medo de ir à cozinha. Os miados estão lá fora, reais. Resolvo sair da cama, tomando o cuidado de ir acendendo as luzes.
Na cozinha, abro a geladeira. Olho a garrafa de água por um tempo e pego uma cerveja. Vou pra sala, atento, mas já sentindo o medo diminuir. Sinto um incômodo leve na sala, mas não consigo definir exatamente o que é. Talvez eu não queira entender o que há de errado. Melhor me distrair dos detalhes.
Abro a janela. A madrugada é quente como qualquer outro horário nesse verão infernal. Nenhum vento entra pela janela aberta. A cerveja não parece ter gosto de nada, mas sei que é diferente da água.
Observo a rua silenciosa, com prédios e casas de poucas janelas acesas e muito escuro. Ninguém na rua. É estranho, eu penso, esse silêncio todo. Onde estão os miados? Prestando mais atenção, percebo, no silêncio, mais ausências além dos miados. Carros e ônibus, outros animais, nada faz barulho na noite. A cidade parece ter se tornado um cadáver, mas um cadáver quente.
Percebo um movimento na rua. Um gato. A pelagem branca, fantasmagórica, brilha na madrugada.
E ele vem, silencioso, subindo a rua com sua elegância arrogante de gato.
Percebo logo que ele está arrastando algo que parece preso ao seu corpo, pela parte de trás. E percebo, mesmo da distância, que ele tem os olhos amarelados fixos em mim, na janela.
O medo volta com toda a sua força paralisante. Não posso me afastar da janela. Preciso assistir ao gato que arrasta algo que sai de dentro de si. Uma estranha bolsa de carne, cheia, presa em seus quartos traseiros e deixando um rastro fino de sangue pelo caminho. E ele me olha. E eu sei o que é essa bolsa.
Horrorizado, sou obrigado a assistir a gata branca arrastando sua placenta rua acima em silêncio absoluto.
Para bem debaixo da minha janela, no meio da rua. Começa a se soltar do embrulho, como se tivesse vindo trazê-lo pra mim. E então mia.
O miado é um lamento fino e longo que me faz querer olhar de volta pra sala, pra carta que eu ignorei sobre a mesa. A carta que não deveria estar lá e é o terrível detalhe do qual me esquivo. A gata começa a rasgar a placenta com seus dentes e garras e de lá, tira um filhote morto e sujo. Esse filhote viscoso é um bebê humano. A gata continua a se lamentar em miados doloridos e num momento ela não está mais sozinha. Outros miados se juntam aos dela e outros gatos vão surgindo, vindos de lugar nenhum, pelas pontas da rua.
Estou dentro da algaravia de miados, sem nenhuma existência, sou um observador sem corpo desse espetáculo de terror. A gata se aproxima do bebê morto e o morde seu rosto.
A cena apenas existe, então não posso me esquivar. A gata arranca pequenos bocados do rosto do bebê, enquanto os outros gatos vão se aproximando e começam a atacar todo o corpinho.
Acordo de uma vez, me debatendo na cama e chorando. Abraço o travesseiro e deixo os soluços virem, tomando conta de tudo. Na rua, gatos acasalam e fazem um barulho infernal e humano. Olho para a janela do quarto e percebo que a madrugada já trocou o negro pelo azulado que indica o amanhecer em breve. O choro diminuiu e eu me levanto, sem nenhum medo, mas completamente desesperado. na mesa da sala, a carta, o envelope rasgado ao seu lado. Os gatos lá fora, impossivelmente reais e barulhentos. Fora dos pesadelos, o maior e mais perverso deles.
Assentado na mesa, já ouvindo um início de movimentação na rua (os primeiros ônibus, as primeiras pessoas, a vida mecânica), pego a carta e meus olhos passeiam pelas palavras, como se estivesse diante de uma língua desconhecida e sem sentido. Mas a indiferença diante de tudo não ameniza o peso do que eu leio. A confusão em que me encontro e os resquícios dos pesadelos não diminuem a verdade escrita ali, em meio aos lamentos e aos insultos.
“Eu nunca quis o aborto. Eu vivi a perfeita ilusão de que éramos felizes, de que você e eu estaríamos pra sempre juntos. Nunca imaginei, seu canalha, que o mundo simples e bonito onde eu vivia não passava de um devaneio no qual você me envolveu, enquanto me traía e planejava uma forma confortável de se livrar de mim. Pois eu espero que a imagem da coisa que seria o nosso filho te assombre pra sempre, seu desgraçado. O inferno é um lugar doce, perto do que você me fez. Do que você me fez fazer.”

::O que me traz o ano novo::

Uma barata agoniza no quarto. Acordei e a encontrei perto do quarda-roupas, em frente a mala aberta, quase desfeita, que por alguma razão eu ainda não guardei, mesmo tendo voltado de viagem há quase dez dias.
Quando me mudei, o apartamento havia sido dedetizado e esse guarda-roupas, embutido na parede do quarto, cheirava veneno. Passamos os primeiros dias, o gato e eu, ofegando e um tanto zonzos. Depois o cheiro se dissipou. Ou nos acostumamos, o que é quase a mesma coisa. O cheiro era invisível, um fantasma disfarçado entre outros que fiz questão de trazer para o apartamento.
Houve uma noite em que eu ouvi algo rastejar e se debater dentro do guarda roupas. Acordei de madrugada assustado. O barulho indicava que algo grande se jogava contra a madeira, pelo lado de dentro. Torci pelos demônios, porque eu não saberia lidar com um rato em casa (não ataco vertebrados, mas bebo do sangue de qualquer um que tenha sido abatido por outras mãos).
No outro dia, uma barata morta, no mesmo lugar onde essa outra, hoje, agoniza. Eu não imaginava que uma barata pudesse fazer tanto barulho, na tentativa de não morrer.
Concluí que baratas são assim: tentam manter-se discretas, sujas e caminhando pelos cantos, mas como todos os outros, são escandalosas diante do próprio fim.

E agora essa outra barata.

Acordei e ela estava lá, como um deja vu da primeira, patas pra cima, imóvel, antenas finas e compridas. A primeira dúvida: será que ela andou realmente comigo, passeando pelo meu corpo, enquanto eu dormia, ou só convivemos no mesmo apartamento, no mesmo quarto e estamos, nesse momento derradeiro, apresentamos nossos corpos um ao outro. Julguei que ela era um cadáver, mas um movimento das antenas me alertou para o contrário. me aproximei e a encarei de perto. As antenas se mexeram com um pouco mais de força e ela chegou a dobrar duas patinhas.
Mesmo que todo mundo ache baratas criaturas nojentas (e eu não discordo), sinto uma curiosidade de gato (de lobo?) diante delas. Pensei em pisar nessa barata e jogá-las fora, mas a certeza de que seu corpo esmagado iria sujar o chão do quarto e- muito provavelmente- a minha melhor mala de viagem, me fizeram optar por assistir em silêncio a morte fazer seu trabalho. Não sei quanto tempo ela levará pra morrer. Estou numa espécie de vigília, de tempos em tempos observando seu corpo rijo de inseto, virado pra cima, em busca de algum sinal definitivo de que ela esteja morta. Mas baratas são criaturinhas insistentes. Há sempre um retorcer das pernas, um movimento da cabeça, algo que indica que ela ainda vai incomodar a desarrumação do meu quarto por mais tempo.
Numa das vezes em fui conferir, ela arqueou a cabeça e a posição ridícula em que se encontrava a fez parecer com alguém que pedisse clemência. Ajuda. Uma barata pede clemência, ou só quer esticar as patas e se agarrar em algo, provavelmente transmitindo alguma doença?
Um pequeno monstrinho no armário, que fugiu, tarde demais, pra não ser asfixiado. E agora oscila entre o desespero de se saber acabando e o cansaço imóvel de quem sabe que o esforço é inútil.
E eu não quero ter que pisar na barata, mas sei que quando chegar o momento derradeiro, ela fará como a outra e vai se debater como um Mercucio quitinoso, amaldiçoando tudo, a vida, o mundo e os próprios amigos, se é que uma barata tem amigos (elas têm colônias grandes. Então são, pelo menos, sociáveis). E, nesse momento, pra não perder o controle, eu vou ser obrigado a abreviar as coisas e esmagá-la.

::mais uma de flor::

Nasceu uma flor no quintal de trás da casa. Fiz um café forte e fui me assentar lá pra ver. Descobri a flor à noite, pouco antes de dormir, fechada ainda. Imaginei que ia abrir de manhãzinha.
Como uma pessoa que se coloca de frente pra uma instalação de arte, ou de um quadro, pra “sentir” e “entender”, me coloquei diante da florzinha, sentado na terra do quintal. Tem grama, mas é mais terra e mato que grama. O ambiente é importante, talvez tanto quanto a flor. O sol das sete e meia, o vento que eu não sei de onde vem, mas vem, o cheiro de verde, sempre um pouco triste, que exala do conjunto de plantas. A terra debaixo de mim, sujando a bermuda e um pouco das minhas pernas.
E a florzinha lá, no meio da manhã acontecendo. As pétalas vermelhas e ainda tímidas e duas folhinhas ainda enroladas no caule frágil, de um verde pálido que diz “eu ainda não estou verdadeiramente viva. Morrer ainda é a operação mais fácil”. Mesmo sabendo que sou eu que estou pensando essas coisas sobre ela, a corrijo: morrer é a operação mais fácil em qualquer momento da vida.
Não sei que flor é essa. Podia disfarçar e dizer que é uma coisa filosófica, de não nomear as coisas, mas é só porque eu me esqueço de pesquisar depois. O certo é que eu nunca planto nada aqui. São os bichos que plantam. Eu vejo depois, acho tudo muito bonito, muito interessante, mas me falta a curiosidade de biólogo, pra buscar uma foto e um nome num livro ou no computador. As plantas nascem como têm que nascer e eu só me dei o trabalho de cercar essa parte da casa porque senão alguém cimenta, asfalta, concreta, cava e faz uma piscina azulejada. Outra mentira seria dizer que eu não gosto de nada disso. Adoro. Mas gosto de terra, também. Das coisas desgovernadas, que acontecem por acontecer.
E da chance que tenho de fingir que uma flor vermelha, desconhecida, que pode simplesmente ser pisada pelo cachorro, represente qualquer coisa de diferente, uma promessa, um amor, a esperança que um filho provoca.

::Defected::

Me sinto um tanto destruído, como se o sangue não corresse. Tenho um verso preso na mente, mas não consigo esticar esse verso num texto inteiro, num poema, não consigo transformá-lo em qualquer coisa. Apenas repito mentalmente a frase, que me reflete, e me pergunto se há algo mais, outros significados, um caminho e qualquer conclusão. Não. Apenas isso e apenas ela. Me sinto destruído, como se meu sangue não corresse. Sinto que deveria me esquivar das minhas verdades, transformando minhas frases em textos ou poemas, mas não há força física, narrativa, criativa. Sou lento e… me sinto destruído. Nada em mim pulsa.
Meu coração é um bloco pesado de chumbo.
Meu coração é um bloco pesado de chumbo.
Meu coração é um bloco pesado de chumbo.
Meu coração é um bloco pesado de chumbo.
Meu sangue não corre mais.

::Um dia, daqui pra frente…::

Não, não te culpo. Até porque não há culpas nesses momentos, a gente vive seguindo desejos que são sempre egoístas, a vida de um vai ser sempre um pouco calhorda aos olhos do outro. Incompreensível e cruel, cada uma das nossas escolhas. A pergunta séria, essa que me faço aqui, fumando e encarando a garrafa quase vazia de Presidente, não é a razão de você ir, isso já estava definido, respondido e esclarecido no dia em que veio. A pergunta é “por que veio?”. Esse é um mistério interessante com o qual eu possivelmente vou me ocupar durante uns meses, um ano, sei lá. Vou encontrar outras mulheres, várias bebedeiras, vou sair com o Teodoro, vou ouvir o sax de Marina e vou me perguntar “por que diabos Melissa me escolheu?”.
É bem engraçado que seja um término sem começo, ou esse vazio nulo de tristeza. Você era inteligente e esquiva o suficiente até pra isso, não deixar que eu me apaixonasse.
Há, quem sabe, as possibilidades absurdas. Você tem um câncer e antes que as terapias comecem a engolir seu corpo e sua beleza, você quis ser a deusa que dança, a dona do sexo dos homens. Uma mulher feliz antes de dar adeus aos cabelos, retirar os seios, perder o viço e mesmo assim, morrer.
Você é casada. Seu corpo não tem indício de filhos, mas você se casou cedo demais e pouco depois de um ano vocês se viram em uma crise que só poderia ser vencida através de compreensão e liberdade. Vocês viajam, cada um pra uma cidade (e eu imagino que seu marido seja um homem bonito e interessante como você), onde irão flertar com pessoas, conhecer gente, vão se divertir e trepar até se reabastecerem de saudades e vontade de estarem de novo um com o outro. Ou talvez ele seja corno. Você o engana, mas depende dele por qualquer razão.
Ou talvez, e isso é mais óbvio que o resto, você seja só uma mulher solitária, cínica, que despreza esses valores maiores, mais profundos e complexos dos relacionamentos (terá sido traída? Caiu num desses relacionamentos abusivos e resolveu nunca mais se apaixonar? Por problemas psicológicos, nunca conseguiu desenvolver afeto por nenhum companheiro?) e pula de parceiro em parceiro, desaparecendo ao menor sinal de um laço afetivo que se forma, ou de uma rotina que se desenha. Deve sentir algum tipo de prazer quando os caras começam a ligar, a falar em saudades, a prometer coisas.
No meu caso foi um acidente completo, por eu também não querer estar preso e te ter como companhia divertida, como sexo, como algo fútil e belo. Talvez você, na primeira troca de olhares, já soubesse que haveria livros mais importantes pra mim, do que você. Que na verdade, há solos de guitarra mais importantes que sua presença.
Você me escolheu pelo silêncio? Por acaso? Porque nunca tinha transado um cara que trabalha com livros? Qual a verdadeira razão?
O certo, Melissa, é que sua presença me distraiu de uma maneira deliciosa, dessa minha dor esquisita de existir. Você diluiu minha angústia durante esses dias e eu te sou muito grato por isso. Sua ausência vai me encher de perguntas tão deliciosas quanto você mesma foi. Seu fantasma, ao invés de me assombrar, me faz a mesma companhia que você…