::stop coming to my house::

Pela janela, carros, ônibus, aviões e um ranger que é como o de aranhas gigantes caminhando pelas avenidas. Pela janela estou muito mais lá que aqui, no quarto. A música, que está onde estou vem como algo distante em meio ao trânsito. Um delírio longínquo, uma coisa sonâmbula, que tenta me fazer voltar para o quarto. Há sonhos que nos despertam e há coisas espalhadas na realidade que tentam nos desligar o tempo inteiro. A música que vem do fundo do quarto e compete com o trânsito da cidade anestésica é assim, um estalo que nos devolve ao sonho. Ou ao sono sem sonho, o sono sem descanso, que é como a vida mesmo.
Não me pergunto pelos motoristas, porque sei que eles não estão lá. Assim como os tripulantes dos ônibus. Os ônibus param, as portas se abrem e nada acontece. Sobem fantasmas e fantasmas descem para ocupar a rua. Eu, na janela, no alto, não participo da não vida que observo. A cidade anestésica é isso, também. É não participar. Tento deixar a música fazer efeito, nunca sentido. O cenário recortado que a janela me dá e os sons longínquos que música do quarto transmitem aumentam minha sensação de alheamento, de torpor.
Não sei se usei algo, mas é como se. Os pés, meio soltos, porque os braços sustentam quase todo o peso do corpo no peitoril, reforçam essa ideia ébria, ou dopada, ou anestesiada. A cabeça pende para o mundo, sem uma intenção real de se juntar a ele ou a qualquer outra coisa. A música, cada vez mais presente, e a garganta, cada vez mais seca, vão me trazendo de volta ao quarto, aos cheiros do quarto, ao calor do quarto.
E ele é tudo o que tenho no momento.

::Ladies and Gentlemen: Mogwai!::

É noite e não se enxerga estrelas. Chove. Imaginar que a lua seria nova pode servir de alento, não haveria nada lá, caso houvesse um lá. A gente passa apressada mesmo debaixo dos guarda-chuvas. Têm medo da chuva, os humanos. Os que aparecem sem proteção correm como loucos e protegem os peitos. Não os recrimino porque sei que a água incomoda bastante as sobrancelhas e escorre para dentro das narinas. Não é uma piscina, não é um rio. É chuva e está tapando a lua nova. Uns poucos pedantes passeiam como se nada daquilo importasse, provavelmente porque levam algum pouco de amor nos bolsos e a chuva o faz inchar. Pedantes e esbanjadores, ora vejam só. No fim, eu gosto muito da chuva e do efeito sobre as pessoas. Quando chove eu quero estar lá junto dos pedantes e me sentir assim, “blasé”, homem-não-de-açúcar. o vento incomoda, a água nas sobrancelhas incomoda, o frio deixa uma certa vontade de dizer palavrões e cantar, mas é boa a chuveirada. Eu quero sair e cantar debaixo da chuva, mesmo que desafine, tussa e engula água suja. Mas não vou. No fim, não há nada lá.