::autorock::

Tem uma frase, mas o importante não é a frase, é o que acontece ao redor. A frase descreve uma coisa como um pôr-do-sol, ou uma pessoa que caminha ou uma bomba que cai e arrasa diversos bairros numa cidade, mas o que acontece ao redor é que preenche a frase, que a torna viva. O sol se pôr não é nada sem os ônibus, os adolescentes em uniformes escolares, os carros e seus motoristas quase sempre imbecis, quase sempre tentando burlar uma lei de trânsito, quase sempre buzinando em momentos indevidos como, por exemplo, quando o sol se põe e nós não deveríamos prestar atenção em nada além do pôr-do-sol.
Ao redor da frase está a vida. Ninguém caminha no vazio, ainda que acredite nisso. A pessoa perde o emprego e acha que caminha no vazio. Descobre que contraiu AIDS do marido e acredita ter caminhado no vazio por todos esses anos. Recebe a notícia da morte da mãe, num acidente doméstico (algo como cair da escada ou tropeçar no banheiro) e tudo fica tão distante, opaco, sem importância que esse órfão recém nascido tem certeza de que caminha no vazio. Mas está errado. As coisas estão sempre ao redor. Ruas, pessoas e seus sofrimentos, homens com pressa e mulheres com medo. Olhar ao redor da frase é mais importante que ouvir a frase, que ler a frase, que escrever a frase.
Porque há um antes e um depois de toda frase, de tudo o que acontece.
Há o instante em que uma criança abre a geladeira e percebe um som distante, um tremor então ela morre. Ou o instante em que um homem saindo para trabalhar olha o relógio pela última vez antes de morrer. Uma professora imagina que vai se atrasar porque resolveu fazer sexo antes de sair de casa e goza com culpa, pensando nas crianças, mas nunca chega porque caiu uma bomba não existe professora, alunos, escola.
Há um terrível depois de tudo. Contagem de mortos, soldados, pessoas cegas, bombeiros, parentes em desespero, os mutilados, cavalos que gritam como almas de outro mundo e a notícia sobre os corpos de uma família que foram encontrados abraçados e mortos e os legistas descobrem que todos morreram juntos, antes da bomba, porque tinham se envenenado e essa é a tragédia.
A frase não é importante porque ela só serve para sustentar as coisas que estão ao redor dela e não para carregar o que seu significado nos diz.
A frase é simplória, circundada pelo mundo e frase nenhuma congela a força ou o movimento terrestre que nos enche com a ilusão de que é o sol que se põe e não nós.

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::stop coming to my house::

Pela janela, carros, ônibus, aviões e um ranger que é como o de aranhas gigantes caminhando pelas avenidas. Pela janela estou muito mais lá que aqui, no quarto. A música, que está onde estou vem como algo distante em meio ao trânsito. Um delírio longínquo, uma coisa sonâmbula, que tenta me fazer voltar para o quarto. Há sonhos que nos despertam e há coisas espalhadas na realidade que tentam nos desligar o tempo inteiro. A música que vem do fundo do quarto e compete com o trânsito da cidade anestésica é assim, um estalo que nos devolve ao sonho. Ou ao sono sem sonho, o sono sem descanso, que é como a vida mesmo.
Não me pergunto pelos motoristas, porque sei que eles não estão lá. Assim como os tripulantes dos ônibus. Os ônibus param, as portas se abrem e nada acontece. Sobem fantasmas e fantasmas descem para ocupar a rua. Eu, na janela, no alto, não participo da não vida que observo. A cidade anestésica é isso, também. É não participar. Tento deixar a música fazer efeito, nunca sentido. O cenário recortado que a janela me dá e os sons longínquos que música do quarto transmitem aumentam minha sensação de alheamento, de torpor.
Não sei se usei algo, mas é como se. Os pés, meio soltos, porque os braços sustentam quase todo o peso do corpo no peitoril, reforçam essa ideia ébria, ou dopada, ou anestesiada. A cabeça pende para o mundo, sem uma intenção real de se juntar a ele ou a qualquer outra coisa. A música, cada vez mais presente, e a garganta, cada vez mais seca, vão me trazendo de volta ao quarto, aos cheiros do quarto, ao calor do quarto.
E ele é tudo o que tenho no momento.

::Ladies and Gentlemen: Mogwai!::

É noite e não se enxerga estrelas. Chove. Imaginar que a lua seria nova pode servir de alento, não haveria nada lá, caso houvesse um lá. A gente passa apressada mesmo debaixo dos guarda-chuvas. Têm medo da chuva, os humanos. Os que aparecem sem proteção correm como loucos e protegem os peitos. Não os recrimino porque sei que a água incomoda bastante as sobrancelhas e escorre para dentro das narinas. Não é uma piscina, não é um rio. É chuva e está tapando a lua nova. Uns poucos pedantes passeiam como se nada daquilo importasse, provavelmente porque levam algum pouco de amor nos bolsos e a chuva o faz inchar. Pedantes e esbanjadores, ora vejam só. No fim, eu gosto muito da chuva e do efeito sobre as pessoas. Quando chove eu quero estar lá junto dos pedantes e me sentir assim, “blasé”, homem-não-de-açúcar. o vento incomoda, a água nas sobrancelhas incomoda, o frio deixa uma certa vontade de dizer palavrões e cantar, mas é boa a chuveirada. Eu quero sair e cantar debaixo da chuva, mesmo que desafine, tussa e engula água suja. Mas não vou. No fim, não há nada lá.