::Tauromaquia 1::

Teseu amarra uma ponta do fio de lá no dedo de Ariadne. Os dois se encaram, enquanto ele desliza a mão sobre seu rosto e seu pescoço. Teseu se despede com um beijo e observa a entrada do labirinto. Poderia dizer uma frase de efeito, como “Isso acaba aqui” ou qualquer outra bobagem, mas não diz. Entra em silêncio e sente toda a profundidade do ato. Não caminha com a inocência heroica de quem tem certeza de que faz o bem. Nem com o ódio e a sede de sangue, tão comuns aos caçadores. Anda pelos corredores como um velho bibliotecário num imenso salão cheio de estantes de livros, perdido diante da imensidão de seu acervo. Adentra o labirinto de Minos levando a espada numa mão, um novelo na outra e um escudo preso às costas. Como se distribuem espada e novelo? Qual o objeto vai em sua mão direita? Não sei, sou apenas um escritor canhoto. Teseu caminha. O cheiro de sangue e podridão, os ossos e a carne apodrecida das outras vítimas e de outros heróis não o impressiona, mas deixa um incômodo visível em seus sentidos. No entanto as paredes não apresentam as mesmas marcas que o chão por onde ele caminha. São pedra polida, limpa, conduzindo a inúmeros corredores e diversos becos e entradas que dão para grandes vãos sem saída. Teseu nunca irá entrar em todos e isso deixa nele a sensação de dever incompleto. Matar o grande touro de Minos e não conhecer o labirinto. Seu labirinto.
A exploração o leva aonde é necessário que vá, em qualquer tempo e atravessando qualquer quantidade de corredores errados: ao corredor certo e ao coração do labirinto. O cheiro de morte aumenta e pela primeira vez ele começa a perceber que as paredes tem tons mais escuros e aqui não há a limpeza do resto da estrutura. Há cadáveres por todos os lados, manchas cor de ferrugem de sangue e restos humanos espalhados.
O coração do homem começa a se turvar e o sangue do caminho passa a ser seu sangue e sua ira. Ele abandona o novelo e passa a carregar o escudo no braço. Ele sabe onde está e sabe por onde caminhar na trilha sangrenta. Quando o ódio está em seu ápice é que Teseu se depara com o Minotauro.
Não existe diálogo, preparação ou avaliação entre os adversários. O monstro é apenas o monstro irracional. O herói é apenas o monstro irracional. Os dois avançam um para o outro. A força do Minotauro parece ser insuperável. Teseu não pode contra seus avanços. Precisa escapar das investidas com muita agilidade. Precisa não se desviar demais, não fugir. Precisa arquear o corpo ligeiramente para o lado, uma passada fugaz e assistir a imensidão furiosa avançar. Eles se cruzam uma, duas vezes, sem que qualquer um se toque. Então, na terceira investida, a espada atinge o flanco do minotauro, que vacila.
Entre o conhecer e o negar da dor, ele se ergue, ainda mais furioso e ataca outra vez. Seu descontrole é a arma de Teseu. Um novo passo para o lado e uma nova estocada. O grande touro se ajoelha e urra.
Tomado pela coragem e crueldade, Teseu avança e levanta o rosto do touro, exibindo seu pescoço. A lâmina atravessa a garganta do Minotauro e seu olhos se tornam opacos, enquanto se contorce o grande corpo. O homem banhado em sangue sobrepujou o monstro, tornando-se (clichê dos clichês) um monstro, ele mesmo. Ele é o grande touro de Minos, que pode vagar livremente pra dentro e pra fora do labirinto e de si.
Ariadne o aguarda. A culpa é toda dela.

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