::Voltei pras redes sociais::

Antes, eu tinha o hábito de ler um poema. Eu procurava o livro na estante, ou jogava o nome do poeta no Google e lia o poema.
Isso parece distante e quase vazio. É preciso que eu fotografe o poema, que eu faça um vídeo lendo o poema, que eu envie um áudio para diversos grupos, para que eles me ouçam lendo, para que eles saibam que eu sei, para que eles gostem porque eu gosto.
É um comportamento padrão e ampliado pra tudo. Eu tenho o mesmo comportamento quando quero comer um sanduíche, tomar uma cerveja, quando frito uns bolinhos, monto uma salada ou quando coloco/tiro minha roupa. Os remédios, visitas, recordes nos jogos, toda a minha vida é filtrada, transformada em imagens e exposta em rede.
E se só eu fizesse isso, todo mundo ia dizer: esse cara enlouqueceu. Mas todo mundo faz o mesmo, então pouquíssima gente realmente percebeu que eu faço todas essas coisas. Pouca gente percebe que eu enlouqueci.
Enlouquecer é como sentir dor. Se você cai e rala o joelho, dói, mas ninguém vai deixar de brincar, correr, andar de bicicleta porque ralou um joelho. Faz parte. Mas se você tem uma fratura exposta, uma dor crônica, se desenvolve enxaqueca, você vai precisar se tratar, tomar remédios, se internar, tirar o time de campo. Perder as pernas quase sempre significa que sua carreira como jogador de futebol acabou.
Enlouquecer é isso. A gente pode ser um pouco louco, impulsivo, excêntrico. Pode ter manias. Pode conversar com algumas vozes na sua cabeça. Mas se a coisa se amplifica e você se torna perigoso pra você e pros outros, se se torna completamente incapaz de funcionar no meio da rua, aí tem que fazer tratamento. E tem. Eu fiz, foi bom. E como alguém que teve uma fratura exposta, hoje eu até me arrisco de novo nas mesmas coisas que me estropiaram da outra vez, mas passei um tempão me cagando de medo.
Mas não era disso que eu estava falando. Ninguém notou que eu enlouqueci. Que eu adoeci. Mas eu não adoeci desse comportamento compulsivo de replicar tudo que eu faço em uma foto ou um vídeo. Eu adoeci disso nos outros. De um maremoto de fotos, vídeos, gente sem roupa, poemas, gente fantasiada, histórias, peitos, tatuagens, bundas, sofrimento, soja mastigada e cozida, ironia com pau pequeno, endeusamento de pau grande, erotismo de gente gorda e muita, muita violência, praticada em todos os níveis, contra todas as pessoas. É importante destacar a violência, embrulhar os estômagos de todos com a violência, para que as pessoas se… sensibilizem? Ou se tornem insensíveis? Doentes, como quem rompeu os nervos e não sente mais a perna.
Nós, em rede, estamos doentes.
Aí eu vou lá e faço o quê? Tiro mais uma foto. Faço mais um vídeo. Desenho e publico, pedindo um pouco de afeto porque eu tenho os peitos grandes e não uso mais sutiã, ou porque eu não como carne, ou porque eu sou só um pobre homem contando violências e aprendendo a não ser machista.
E eu tenho tanto a dizer. Tenho tanto a pedir, a observar e analisar.
Eu vou ler e não vou contar pra ninguém. Vou comer a comida mais bonita, mais gostosa, mais cheirosa sem tirar uma foto. Vou escrever no meu caderno e não vou publicar. Vou publicar num livro. Vou vender 100 exemplares e só 40 pessoas vão ler e só 28 vão ler até o fim e umas 15 é que vão gostar e perguntar se eu vou escrever mais e quase ninguém vai lembrar depois e meus 200 seguidores do Instagram e meus 800 amigos do Facebook e meus contatos do Whatsapp não vão ter nada com isso.
E aí, meus amigos, aí eu vou poder tomar café e ouvir discos conceituais com músicas de 20, 30 minutos, sem desespero. E vou ajudar umas Ongs, ouvir uns companheiros e ler os teóricos indígenas e os brancos, as filósofas brancas, sociólogas negras, antropólogos negros e asiáticos. Porque não vai ter mais o maremoto e eu vou conseguir me encontrar, escolher e pensar.
Pensar nas coisas ainda vai deixar de ser uma doença.

PS: meu corretor automático considera a palavra “filósofa” um erro ortográfico.

::quase manual, meio revisitado::

Regra nº1: o futuro e o passado são iguais, do ponto de vista da memória. Pode-se lembrar pra trás ou pra frente. Quanto mais perto do presente, mais acurada é a memória. Aos 30, se lembrar de 25 anos atrás é tão difícil quanto projetar 25 anos a frente. Ao mesmo tempo, é bem fácil pensar no que fizemos há cinco minutos atrás, ou o que faremos nos próximos cinco minutos. E não nos enganemos, o passado é tão sujeito a imprevistos quanto o futuro;
Regra nº2: um sonho é uma espécie de lembrança embaralhada, normalmente mais divertida e eventualmente mais terrível. Apesar da maioria dos sonhos que se tem serem pesadelos (alguém afirmou isso, eu acreditei sem nunca recorrer a uma fonte. Mais ou menos como acreditei quando me contaram que há pesquisas que mostram que há diferenças intelectuais e de aprendizado, quando se lê encostando no papel, ou no telefone/teclado.), uma memória sempre será mais cruel. Por exemplo: é terrível sonhar que sua mãe está morta. Mas será sempre pior acordar, se isso tiver de fato acontecido e essa for a sua memória;
Regra nº3: Assim como o sonho, a literatura é um embaralhamento e reorganização da memória. O problema é que controla-se muito a literatura. O sonho não é um produto da intelectualidade. Portanto, por mais psicodélica, fantasiosa ou inventiva, a literatura é quase sempre mais estruturada e menos dada aos imprevistos comuns ao sonho. Sob esse aspecto, textos desorganizados, pensados de qualquer maneira e sem todas as nossas lógicas (gramaticais, de enredo, de regras da física e metafísica literária), textos genuinamente mal escritos são mais próximos do sonho do que o que consideramos bons textos;
Regra nº4: Podemos determinar o que é o sonho, a partir de uma memória do sonho. Quando você está acordado pode se lembrar de ter sonhado. Essa continuidade intelectual está normalmente ausente no sonho (ela pode ou não existir. Fora dele, ela sempre existe). Durante um sonho, uma pessoa não se lembra (mas pode ser que essa pessoa genérica seja só eu) de suas memórias como se fossem sonhos;
Regra nº5: Não podemos definir a literatura com a mesma tranquilidade que definimos o sonho. Todas as tentativas fracassaram e não foram abrangentes o suficiente. Sempre vai existir alguém para apontar que a literatura é outra coisa, ou é “também” outra coisa.
Regra nº6: só é uma regra aquilo que optamos seguir como dogmático. Aquilo que serve para definir o olhar e a conduta.

Por um dessas coincidências interessantes, meu cunhado e vizinho começou a ouvir “dream on”, do Aerosmith. O refrão é “Dream on/ dream untill your dreams come true”. Percebi que não pensei nos sonhos que se transformam em realidade. É preciso pensar em mais regras, mais tarde.

::problemas::

Meu texto deu a volta completa e chegou ao ponto de partida. Mordeu o próprio rabo. Não era pra ser um caminho circular, mas foi. Voltei a sentir medo. Voltei a não ouvir minha voz. Comecei a ouvir as vozes dos outros, quando leio as coisas que eu escrevo.
Meu texto morreu, aparentemente.
Há outra possibilidade. O texto deu um passo pra trás. Se for isso, menos mal. Dá pra caminhar de novo, depois. Eu acho.
Agora eu vou ficar andando, olhando as coisas e pensando: como será escrever com um texto que está morto?

::autorock::

Tem uma frase, mas o importante não é a frase, é o que acontece ao redor. A frase descreve uma coisa como um pôr-do-sol, ou uma pessoa que caminha ou uma bomba que cai e arrasa diversos bairros numa cidade, mas o que acontece ao redor é que preenche a frase, que a torna viva. O sol se pôr não é nada sem os ônibus, os adolescentes em uniformes escolares, os carros e seus motoristas quase sempre imbecis, quase sempre tentando burlar uma lei de trânsito, quase sempre buzinando em momentos indevidos como, por exemplo, quando o sol se põe e nós não deveríamos prestar atenção em nada além do pôr-do-sol.
Ao redor da frase está a vida. Ninguém caminha no vazio, ainda que acredite nisso. A pessoa perde o emprego e acha que caminha no vazio. Descobre que contraiu AIDS do marido e acredita ter caminhado no vazio por todos esses anos. Recebe a notícia da morte da mãe, num acidente doméstico (algo como cair da escada ou tropeçar no banheiro) e tudo fica tão distante, opaco, sem importância que esse órfão recém nascido tem certeza de que caminha no vazio. Mas está errado. As coisas estão sempre ao redor. Ruas, pessoas e seus sofrimentos, homens com pressa e mulheres com medo. Olhar ao redor da frase é mais importante que ouvir a frase, que ler a frase, que escrever a frase.
Porque há um antes e um depois de toda frase, de tudo o que acontece.
Há o instante em que uma criança abre a geladeira e percebe um som distante, um tremor então ela morre. Ou o instante em que um homem saindo para trabalhar olha o relógio pela última vez antes de morrer. Uma professora imagina que vai se atrasar porque resolveu fazer sexo antes de sair de casa e goza com culpa, pensando nas crianças, mas nunca chega porque caiu uma bomba não existe professora, alunos, escola.
Há um terrível depois de tudo. Contagem de mortos, soldados, pessoas cegas, bombeiros, parentes em desespero, os mutilados, cavalos que gritam como almas de outro mundo e a notícia sobre os corpos de uma família que foram encontrados abraçados e mortos e os legistas descobrem que todos morreram juntos, antes da bomba, porque tinham se envenenado e essa é a tragédia.
A frase não é importante porque ela só serve para sustentar as coisas que estão ao redor dela e não para carregar o que seu significado nos diz.
A frase é simplória, circundada pelo mundo e frase nenhuma congela a força ou o movimento terrestre que nos enche com a ilusão de que é o sol que se põe e não nós.

Vocês sofrem de Asperger.
Talvez eu sofra de Asperger, não vocês.
Talvez todos nós estejamos doentes. Não Asperger. Depressão?
Somos incapazes de olhar para a realidade, incapazes de ser objetivos e, ao mesmo tempo, incapazes de lidar com o mundo imaginário, com as entrelinhas, com os significados que ficam apenas sugeridos em nossas frases, livros, assuntos.
Deprimidos e muito perigosos.
E muito provavelmente não é nada disso.
Muito provavelmente não há ninguém doente.
Somos só perigosos. E somos perigosos porque além de violentos, nos fingimos de doentes.
Vocês não têm Asperger, não é mesmo?

::20 de novembro::

Acordei as sete e meia da manhã e às dez pras oito entrei no Facebook pela primeira vez no dia. Foram quatro mensagens sobre o dia da consciência negra. Todas as quatro desprovidas de qualquer conscientização possível.

Não. Nós não somos iguais.

A discussão racial, que a mídia tenta manipular e por isso vocês acreditam que seja assim, não tem nada a ver com biologia.
A discussão étnica não passa por princípios de constituição, da nossa bela e hipócrita constituição, que diz e afirma (porque pode-se dizer tudo num papel) que somos, diante dos olhos cegos da lei, idênticos.

Não, nós não somos iguais.

Acontece em sociedade, acontece quando estamos todos juntos num emaranhado que não se rege por tratados científicos ou textos legislativos, ainda que eles tenham sim, alguma influência nas nossas atitudes.

Não nós não somos iguais.

E para mostrar que não somos iguais, é só mostrarmos como cada um de nós anda e flutua nesse caldo pra essa mentira se mostrar ridícula, precária, ingênua e estúpida.
Não somos iguais diante de um policial;
Não somos iguais diante de uma entrevista de emprego;
Não somos iguais nos shoppings da zona sul (onde eu faço questão de dizer aos meus amigos “perceba que os negros, no shopping, estão quase sempre vestindo uniformes”);
Não somos iguais diante da forma como um professor trata nossos filhos;
Não somos iguais quando andamos numa rua escura
Não somos iguais quando andamos numa feira de artesanato, lotada;
Não somos iguais quando nos encontramos à noite;
Não somos iguais nas nossas folhas de pagamento;
Não somos iguais diante das estatísticas de mortes violentas;
Não somos iguais nas estatísticas de morte prematura;
Não somos iguais nas salas de aula, ou na presença em universidades;
Não somos iguais quando observamos nossa distribuição pelas ocupações.

Nâo, não somos iguais. E eu não precisei recorrer à História, mesmo sabendo que ela justifica e explica o porquê de não sermos iguais.
Não recorri pra que não haja a possibilidade de que só se enxergue essa diferença no passado, numa sociedade podre e atrasada que nos tratava de modo diferente, na biologia e no direito.
A sociedade ainda é podre e atrasada e o avanço de nossas compreensões sobre a vida não serviu para que mudasse o jogo social, apenas deu aos imbecis e hipócritas novas formas de se distrair.

Feliz dia da consciência negra pra você que quer romper o senso comum, que quer sair das argumentações sobre “um amigo que se deu muito bem” ou “um amigo que é muito preguiçoso” e discutir a nossa desigualdade.
Feliz dia de Zumbi pra você que quer tomar qualquer consciência das coisas.

::leitora::

Ter leitor é uma coisa bonita que acontece quando a gente começa a escrever. Vem uns teóricos doidos pra dizer que a gente lança um texto no espaço e o leitor pega e reconstrói e tudo mais, mas isso é pouco. Quando a Camila começou a conversar comigo sobre as coisas que ela leu, eu me senti muito bem. Senti que havia um propósito que não era hedonista na minha escrita. Senti que estava dividindo um doce.
Li diversos comentáros espalhados no meio do blog e vi uma vontade sincera dela de internalizar meu texto, de fazer com que algo que pertence ao meu mundo pessoal (às vezes ultrapessoal, confessional, quase intransferível) também faça sentido na vida dela.
Quando o escritor é importante, quando virou um lendário nome na literatura mundial, é normal que os leitores se sintam íntimos dele, que pensem que existe uma conecção de ideias entre suas vidas e a vida do escritor, porque um determinado livro ou texto saiu de uma mente pra fazer sentido pra outra.
Comigo é o contrário. Vou logo tratando como velho amigo alguém que me lê. Acho que, menos por uma noção da infita conexão astrológica, cósmica, do sétimo dia, proporcionada pelas chaves de significação do texto e mais porque eu acho que pra me ler, tem que gostar de mim. Minha literatura me soa como a mania que a gente tem que perdoar num amigo.
E daí que a Camila sempre foi uma presença sorridente e simpática, mas eu ainda não tinha pensado nela, assim, objetivamente, como minha amiga.
Virou em amiga depois que começou a me ler. Ficou “de casa”. Chega no messenger me chamando de “Zé”. E o mais engraçado é que desde que eu a ganhei como leitora, a gente nem se encontrou mais.
Essas coisas botam a gente pra pensar profundamente sobre alguns assuntos: “até onde a gente consegue avaliar com clareza aquilo que escreve?”, “quais conexões a literatura pode ajudar a criar entre as pessoas?”, “será que o marido dela bebe cerveja?”
Esse texto está aqui porque eu tinha prometido a ela. Eu ia dizer nesse texto que ela é meu quarto leitor e a quinta Camila. Mas é bobagem.
Primeiro porque como leitor, Camila é um intermediário da Simone com Vivian, uma pessoa que me leu porque me achava uma pessoa simpática e continuou a ler porque gostou mais da literatura que de mim.
Depois porque, em matéria de Camilas, das quatro outras só uma ainda é presente (apesar de nos vermos pouco) e é minha amiga (minha best friend forever) e só me dá boa notícia. Então não vale a pena insistir nessa do nome. É só um nome comum e bonito. Como diz meu pai, nome de mulher bonita e complicada.
De resto, Camila, o mundo é cruel e a gente sofre e tenta ser feliz. Não sofrer às vezes parece tão raro que vira um modelo de felicidade. Às vezes, não.