::and the mouse police never sleeps::

Deus está nesse momento sentado na cama e tocando flauta. Aos seus pés se encontra uma garrafa de vinho seco, já pela metade. Ele tira da flauta um som muito bonito e pensa no que eu acabo de dizer a ele, sobre as pessoas e a infelizidade. Então ele pára, faz uma cara muito amargurada e diz choroso:
_Mas eu não tenho nada a ver com isso…
_Tem uns livros que dizem que você e mais ninguém tem algo a ver com isso.
Ele me encara, mas com olhos muito vagos, como se observasse alguma coisa atrás de mim. Pega a garrafa no chão e dá um gole generoso antes de me entregá-la para fazer o mesmo. Limpa a boca com o braço e baixa o olhar pros pés.
_Olha, dentro de um certo ponto de vista, a culpa é minha mesmo, porque eu é que cismei de inventar tudo. Mas por outro lado, a partir do momento em tudo estava aí, pronto, eu deixei de ter poder sobre as coisas. Eu nunca quis ter poder sobre as coisas!
Por ter percebido que ele ia começar a se explicar demais e que isso significava o fim dos solos de flauta, resolvi ligar o som. Ficamos os dois num silêncio de expectativa diante de todas as músicas do universo. Eu escolheria as primeiras, ele colocaria outras. Era um jogo. Jefferson airplane começa a cantar e nós acompanhamos

“I-I oughta get goin’
I-I shouldn’t stay here and love you
More than I dooo
‘Cause you-ou’re so much younger than I am
Come up the years
Come up the years
And love me… love me, love me!!!”

_Mas continuando, a existência dessas coisas todas é a existência exatamente de algo que não seja eu, daquilo que é exterior e separado de mim, já que se fosse para que eu me desdobrassem me conhecendo e continuasse a ser isso não faria sentido e eu continuaria e perceber que tudo era óbvio por tudo ser apenas uma face da minha vontade. Então eu percebi que a existência de algo separado de minha vontade resentava uma oportunidade de observação, percebe?
_E daí você inventou os homens?
_Não. Daí eu inventei a existência. o princípio pelos quais as coisas se dispõem. O resto é acidental.
O diálogo com Deus é esse, repetitivo e desencontrado. Tudo isso saiu entre intervalos para vinho e até um momento em que ele soprou na flauta verde a melodia da música. Então magicamente Grateful Dead apareceu com Dark Star. Abrimos oura garrafa, uma nova garrafa de bebida para acompanhar os longos minutos com essa música avança nos fazendo pensar em tudo que se encontra muito distante porque simplesmente já aconteceu. E eu observo Deus deitado na cama com os braços abertos balançando a cabeça de leve e me pergunto se essa é realmente a sensação dele, se algo pode em qualquer instância estar distante ou separada de Deus. Segundo ele, pode.
O avançar das músicas, dos grupos, do álcool em nossa corrente sangüínea, tudo isso ia nos fazendo mais angustiados, mais aflitos, mais inutilmente tristes. Aí eu percebo que tenho diante de mim um Deus chorão e sujo de vinho e ranho e ele lamenta:
_Eu não tenho nada a ver com isso, Ismael… quando eu percebi, achei melhor me isolar. Não é minha culpa…
Mas nós dois sabemos que ele chora porque a culpa, de alguma forma, é sempre dele.

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