::das tecnologias::

As sensações do acordar são sempre confusas, dolorosas. Choveu muito e apesar da certeza de que isso atrapalhou a qualidade do sono, agora, ao acordar, ficou óbvio que não conseguia ligar sua existência no presente ao seu passado através dessa noite, que foi mal dormida, mas mal dormida profundamente, como um transe ou um coma. É fato que o corpo não está descansado e ainda por cima dói a coluna por culpa de um colchão macio demais. Isso tudo faz com se levante chutando sapatos e chinelos, cambaleando até a cozinha onde põe a água para ferver e antes do café o choque de perceber a carta o faz voltar perfeitamente à realidade.
A carta em cima da mesa da cozinha.
Ele tem absoluta certeza de que não havia carta em cima da mesa da cozinha na noite anterior.
Instintivamente ele olha para trás, não como alguém que espera ser atacado, mas como quando se olha para trás e tenta-se redesenhar mentalmente o caminho que acaba de ser percorrido. Ele olha para trás na esperança de que isso o ajude a enxergar o passado, a noite de ontem e que isso de alguma maneira explique a carta.
Não explica.
O trânsito, para variar, estava um inferno. A bateria do telefone (que era, em verdade, mais aparelho musical que telefone) acabou no meio da viagem e ele foi obrigado a perceber os sons e as formas à sua volta durante grande parte do trajeto pra casa. Viadutos, mendigos, policiais, ambulâncias. Gente que vende jornal na rua. Gente que vende bala na rua. Gente que enfia panfletos pelas janelas dos automóveis e ônibus na rua. Chegou em casa antes das oito, tempo de sobra para assistir o jornal, responder e-mails, telefonar.
Não havia carta sobre a mesa da cozinha.
Abriu uma pecaminosa latinha de cerveja e deixou a tv num canal de músicas (horríveis, mas que mulheres maravilhosas essas que rebolam na tv), enquanto vagava na internet. Na ausência de um significado profundo para a existência, uma revelação que alterasse o curso da humanidade ou de sua vida ou do dia de amanhã, resolveu que o melhor a fazer era dormir. E como dormiu mal.
E agora estava diante de uma carta que não fazia, de modo algum, parte do cenário do dia anterior.
Esquecendo-se do horário e da água que já quase fervia, assentou-se de frente para ela, como se pudesse abrir o envelope com os olhos. Depois, assumindo intimamente que estava muito assustado, apanhou-o e o abriu para ler.
Sim, eu estive aqui ontem à noite, depois que você dormiu. Fiquei enquanto choveu.Por falta de atenção tenho certeza de que não percebeu que eu deliberadamente troquei seus livros de lugar, mexi nas gavetas do móvel maior da sala e parti os fios da tv. O seu notebook foi roubado na esperança de que você me denuncie. Pareceria mais fácil se eu tivesse a sensação de estar me vingando de você. E eu estou, de certa maneira. Mas de uma maneira mais sublime, menos sensata, um maneira que não combina com isso que eu sinto, que é imediato e animal, vontade simples de prejudicar você profundamente, ainda mais profundamente se em algum momento eu tiver a oportunidade de sentir que você é inocente ou ignorante de sua culpa. Isso me deixa com ainda mais ódio e pode ser que algo mais esteja quebrado hoje de manhã, ou talvez eu me controle, para que você não acorde com o barulho. Talvez sim, talvez não.
Mas deixo uma coisa para você pensar: entrar aqui foi fácil. Estar aqui foi fácil, você não acordou. E eu não vou negar que minhas vontades mais brandas têm a ver com matar você. Então talvez eu tenha roubado seu notebook como uma última tentativa do covarde que mora em mim, em nós todos, de que você acione a polícia, eu seja preso e não tenha oportunidade de fazer nada. Você me prende por roubo, eu vou preso por não ter cometido um assassinato. Ficamos assim então, sua última chance.

Suspirou, lembrou-se água e providenciou um café bem forte, pra espantar a dor de cabeça que não passou nem com o susto. Ficou na janela fumando e bebendo café. O melhor era não ir trabalhar. O mundo está cheio de pessoas loucas, completamente loucas, pensou. É claro que ele não ia chamar a polícia. Se tudo aquilo fosse mais que uma ameaça vazia, hoje um deles ia descobrir o valor exato daquela merda de computador.

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::Interlúdio triste::

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

(Os ombros suportam o mundo – Carlos Drummond de Andrade)

::aspecto::

Mudei a aparência do blog porque, segundo consta, dói menos ler com fundo escuro. Agora ele não tem absolutamente mais nada que lembre meu antigo Bom Dia, Mundo Cruel! e isso me deixa, de alguma maneira, satisfeito.

::and the mouse police never sleeps::

Deus está nesse momento sentado na cama e tocando flauta. Aos seus pés se encontra uma garrafa de vinho seco, já pela metade. Ele tira da flauta um som muito bonito e pensa no que eu acabo de dizer a ele, sobre as pessoas e a infelizidade. Então ele pára, faz uma cara muito amargurada e diz choroso:
_Mas eu não tenho nada a ver com isso…
_Tem uns livros que dizem que você e mais ninguém tem algo a ver com isso.
Ele me encara, mas com olhos muito vagos, como se observasse alguma coisa atrás de mim. Pega a garrafa no chão e dá um gole generoso antes de me entregá-la para fazer o mesmo. Limpa a boca com o braço e baixa o olhar pros pés.
_Olha, dentro de um certo ponto de vista, a culpa é minha mesmo, porque eu é que cismei de inventar tudo. Mas por outro lado, a partir do momento em tudo estava aí, pronto, eu deixei de ter poder sobre as coisas. Eu nunca quis ter poder sobre as coisas!
Por ter percebido que ele ia começar a se explicar demais e que isso significava o fim dos solos de flauta, resolvi ligar o som. Ficamos os dois num silêncio de expectativa diante de todas as músicas do universo. Eu escolheria as primeiras, ele colocaria outras. Era um jogo. Jefferson airplane começa a cantar e nós acompanhamos

“I-I oughta get goin’
I-I shouldn’t stay here and love you
More than I dooo
‘Cause you-ou’re so much younger than I am
Come up the years
Come up the years
And love me… love me, love me!!!”

_Mas continuando, a existência dessas coisas todas é a existência exatamente de algo que não seja eu, daquilo que é exterior e separado de mim, já que se fosse para que eu me desdobrassem me conhecendo e continuasse a ser isso não faria sentido e eu continuaria e perceber que tudo era óbvio por tudo ser apenas uma face da minha vontade. Então eu percebi que a existência de algo separado de minha vontade resentava uma oportunidade de observação, percebe?
_E daí você inventou os homens?
_Não. Daí eu inventei a existência. o princípio pelos quais as coisas se dispõem. O resto é acidental.
O diálogo com Deus é esse, repetitivo e desencontrado. Tudo isso saiu entre intervalos para vinho e até um momento em que ele soprou na flauta verde a melodia da música. Então magicamente Grateful Dead apareceu com Dark Star. Abrimos oura garrafa, uma nova garrafa de bebida para acompanhar os longos minutos com essa música avança nos fazendo pensar em tudo que se encontra muito distante porque simplesmente já aconteceu. E eu observo Deus deitado na cama com os braços abertos balançando a cabeça de leve e me pergunto se essa é realmente a sensação dele, se algo pode em qualquer instância estar distante ou separada de Deus. Segundo ele, pode.
O avançar das músicas, dos grupos, do álcool em nossa corrente sangüínea, tudo isso ia nos fazendo mais angustiados, mais aflitos, mais inutilmente tristes. Aí eu percebo que tenho diante de mim um Deus chorão e sujo de vinho e ranho e ele lamenta:
_Eu não tenho nada a ver com isso, Ismael… quando eu percebi, achei melhor me isolar. Não é minha culpa…
Mas nós dois sabemos que ele chora porque a culpa, de alguma forma, é sempre dele.

::hippie e sacaninha::

Abro a janela e passo um tempo encarando o céu lá fora. Está verde. Verde como um limão, Deus deve estar de brincadeira comigo…
Na cozinha, coloco água para ferver e percebo que Horácio, meu coelho de estimação, está acordado em sua gaiola. Abro a porta da gaiola e ele foge para a sala, parando antes em frente à fruteira (onde não há frutas, apenas legumes) para roubar uma cenoura.
Me assento ao lado dele já com uma xícara cheia de café forte e pão com manteiga. Assistismos tv e conversamos sobre amenidades. Conto sobre a cor do céu e ele se dirige à janela para conferir. Não sei o porquê, mas Horácio confia muito pouco em mim. Ele diz que coisas estão caindo do céu e eu me levanto e vou ver. Há realmente uma chuva de umas… umas coisas parecidas com geléia de uva, mas que estão de certa forma vivas, porque ao cair sofrem pequenos espamos e fogem para os cantinhos. Meu coelho passa um tempo encarando as melecas caindo e diz meio pra si “livre arbítrio é mesmo uma droga…”
Concordo com ele, mas todos sabemos que essa é uma decisão que está além de nós mesmos. Temos apenas que nos virar com a liberdade, não há como escolher não ser livre, não há maneiras de escapar ao fato de que as coisas não estão enrelaçadas e determinadas em grandes manuais de existência. Deus simplesmente não nos pergunta nada antes de começar com suas gracinhas.
Mesmo assim, escravo que sou de minhas obrigações, corro para tomar banho. É sempre a mesma coisa, quando o céu amanhece verde o trânsito fica um horror e todos passam o dia mal humorados. Antes de sair de casa faço um cafuné nas orelhas de Horácio e pergunto se ele não quer que eu traga algo da rua.
“Nada caro, quero uma rosa, a mais exótica das que você puder colher pelo caminho.”